Henrique Artuni

Estudando a mais pura forma da inocência desde algum período de tempo atrás. No mundo imaginário, aprendiz do Jornalismo

O ódio e a melancolia no oitavo Tarantino

Abrangente e também íntimo, Os Oito Odiados é muito mais do que um épico banho de sangue.


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O oitavo filme de Quentin Tarantino chegou às telas e, como sempre, com muita discussão. Discussão por vezes não justificável, apenas mais uma manobra da mídia de mostrar o seu “choque” em relação ao diretor, que, há anos, já explicou muito claramente as decisões que toma nos seus filmes. Vide a polêmica com Spike Lee, diretor que, razoavelmente, não faz um ótimo filme há um bom tempo. O remake de Oldboy, por exemplo, é vergonhoso. E mesmo que ele tenha importância no cinema negro norte-americano, repete tanto quanto Tarantino “repete” suas tramas.

Mas, o que define Tarantino como um dos melhores que se tem em Hollywoood hoje, é sua evolução, seus estudos, a paixão pelo cinema, integrante de um seleto grupo de pessoas que podem ser chamadas de autores, invadindo os campos linguísticos e tornando-se adjetivos. Além de tudo, tornou-se uma celebridade, diferente de muitos de seus companheiros.

Assistir aos Oito Odiados é, no mínimo, uma experiência, por vezes saudosista, mas igualmente refrescante. No Brasil, não teremos a sorte de receber a edição integral, que possui um overture e um intervalo no meio da sessão, além dos gloriosos 70mm, não compatíveis com nossas salas, mas que, mesmo convertidos em 35, são igualmente acachapantes e funcionais. Diferentemente das vezes que foram usados, os 70mm não são focados em fazer filmagens externas em excesso, mas para mostrar o ambiente inteiro em um só take, dando uma nova camada à mise-en-scène, assemelhando-se a uma experiência teatral.

Se cinema é ilusão, “dois passos para frente e um para trás” pode ser um slogan para o filme. O recuo existe porque, embora a grandiosidade dos faroestes, invocada com perfeição pela união do plano-sequência que abre a projeção com a trilha inspiradíssima de Ennio Morricone, nos impressione, Tarantino retorna a sua origem cabanesca, Cães de Aluguel. Mas, com uma cabeça muito mais experiente do que a de 92. A aproximação da cruz grita: estão todos condenados.

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A imensidão da neve, contrastando com a diligência e com a cabana onde a ação do filme se desenvolve, é um dos símbolos mais importantes do longa. A guerra dos extremos é parte da História dos EUA, e, consequentemente, uma das características marcantes do longa. Abertas as feridas dos confederados após o fim da Guerra de Secessão, acompanhamos o carcereiro John Ruth (Kurt Russel), algemado à fora da lei Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), indo em direção a Red Rock para cumprir seu serviço. No meio do caminho encontra o Major Marquis Warren (com Samuel Jackson tão bem quanto em Pulp Fiction), e o futuro xerife de Red Rock, Chris Mannix (Walton Googins).

O tom dos primeiros capítulos é ótima prova da qualidade dos diálogos de Tarantino, que, longos ou curtos, são precisos. E, mesmo que estejamos acompanhando uma história nos Estados Unidos, em um lugar amplo, a claustrofobia e o pós-apocalíptico são elementos que surgem da soma da composição. Não é a toa que é, talvez, o filme mais contido do diretor, que continua trabalhando o cinema de gênero muito bem, mas não apela para referências (que em sua filmografia nunca são cópias fúteis, mas frutos de um estudo apurado do cinema). Segue o trotar dos cavalos, vão os Quatro Cavaleiros parar no famigerado armazém.

E quando lá chegam, se reúnem a mais Quatro figuras misteriosas, cada uma representante de um arquétipo da formação dos Estados Unidos, e o personagem de Kurt Russel, que até o momento era o guia da ação, ofusca-se perante toda a particularidade de Major Marquis, que, na pele do melhor intérprete que Tarantino conseguiu para seus monólogos, assusta o espectador com um tipo de cena clássica nos seus filmes, mas que vem com peso igual ou maior aos cães dilacerando o escravo em Django Livre. Fazendo referência direta à primeira sequência do longa, a via crucis descrita pelo personagem de Jackson é uma borrifada de álcool nas chagas da Guerra de Secessão, personificada no General Sandy Smithers (Bruce Dern), mais uma lente da visão ácida de Tarantino. O mundo foi construído a partir da violência. E, justificada, por ela será destruído. O oito que até o momento parecia mais publicidade e megalomania, deita e se transmuta na lemniscata. Há ódio nos protagonistas, nos antagonistas, no mistério e no espectador. Por muitos confundido com frustração, criada pela quebra de expectativa.

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Se em Django a chegada da “civilização” é o que gera a violência, ela própria é vítima de si mesmo e transformada no motor da discussão de Os Oito Odiados. Contrasta o niilismo com o paradigma cristão, igualando a emancipação e a responsabilidade. Nas três horas de projeção, que passam num estalo, há um tom muito bem resolvido. Esta aí os dois passos para frente. Ou, até, três.

Filho de quem é, o filme usa a violência, também, como alívio da tensão, num desregrado banho de sangue. Todavia, mesmo que muito engraçada, a impressão final é de amargura, de melancolia, ameaçada pela grandiloquência, mas que retoma a face de Beatrix Kiddo no volante.

Recriar sínteses de discussões maiores é uma das formas mais clássicas de trazer a tona arquétipos desenvolvidos no enredo superficial. Em maior ou menor grau, as boas grandes produções se apropriam disso. Star Wars é um dos mais simbólicos, afinal, Joseph Campbell. Mas, desta vez, os modelos e o clímax apoteótico se unem na tragédia e mostra que a bandeira de Tarantino é muito mais que estética de uma maneira mais berrante que em seu filme anterior. Os créditos: There won’t be many coming home. Autoexplicativo.

Mesmo não sendo perfeito, perdendo-se em alguns momentos em sua própria explosão (com Channing Tatum como porta-voz), a impressão que fica é de uma resposta aos bombardeios que o diretor sofre de uma sociedade que, séculos depois, permanece a mesma da mostrada no longa. E, enquanto celebridade, verte sobre a plateia todo o gozo do fazer do filme, de pirar em cima de uma teoria conspiratória, rir de si mesmo, e não se deixar levar pelo natimorto cinema “de arte”.


Henrique Artuni

Estudando a mais pura forma da inocência desde algum período de tempo atrás. No mundo imaginário, aprendiz do Jornalismo.
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