Henrique Artuni

Estudando a mais pura forma da inocência desde algum período de tempo atrás. No mundo imaginário, aprendiz do Jornalismo

O Regresso de Iñárritu aos holofotes das premiações

Depois de experimentar em Birdman, Alejandro G. Iñarritu repete sua nova fórmula.


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Em 2014, o lançamento de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) causou uma comoção geral em boa parte da crítica e dos cinéfilos, tanto pelo tour de force de executar e costurar o filme em um truque de plano sequência, e também por criticar as grandes produções cinematográficas com ironia, afinal, são estrelas norte-americanas, numa obra de tom épico, embora desastroso. No final das contas, rendeu 4 Oscars: melhor filme, direção, roteiro original e fotografia.

Passado aproximadamente um ano de sua estreia, reassistir à Birdman deve virar uma sessão com uma pitada de vergonha alheia. Muito do seu brilho se perde fora da euforia da maior premiação do mundo. Na verdade, a razão pela qual o prêmio foi dado pela Academia torna-se mais óbvio, perante a volatilidade da substância do filme. Além do mais, comparando no quesito direção, onde concorriam na época O Jogo da Imitação, Foxcatcher, Boyhood e O Grande Hotel Budapeste. Se é o esforço acima da qualidade, Richard Linklater seria a escolha mais certeira, que, embora seu filme também tenha perdido seu brilho fora do universo das premiações, se mantém como uma experiência muito mais marcante que a junção de takes em um famigerado plano-sequência, vide Festim Diabólico. Pessoalmente, ficaria mais feliz com a vitória de Wes Anderson ou de Bennett Miller, diretores precisos, criativos, que mantém uma filmografia impecável (com algumas oscilações no caso de Anderson, entre ótimo e bom), e nunca foram devidamente reconhecidos pelos seus trabalhos.

Enquanto Inárritu deixava seu filho mais premiado se desnudar e mostrar as falhas com o tempo, correu para o frio do Canadá e da Argentina para entregar precisamente na época das premiações, mais um filme de puro esforço. Convenientemente, já arrematou os Globos de Ouro de melhor filme dramático, melhor ator em drama e melhor diretor. Dias depois, recebeu 12 indicações ao Oscar. Será essa a vez de DiCaprio conseguir sua estatueta? Se sim, a mancha de desgosto crescerá e enferrujará o prêmio. Depois de dispensarem seu trabalho em Django Livre e em O Lobo de Wall Street, a chance presente é puro blasé. Ou seja, confirma a identidade conservadora da Academia. E o grande problema é que continua e continuará sendo a maior referência para a popularidade cinematográfica. Por exemplo, O Menino e o Mundo, filme de animação brasileiro, impecável, lançado a dois anos atrás, só está recebendo atenção da grande mídia agora que foi nomeado na premiação, fato que corrobora para a manutenção da indústria cinematográfica e da dominação do cinema norte-americano. De uma maneira, é bom para a revitalização da obra. Mas depender de um reconhecimento estrangeiro para este sopro de vida, ainda mais, com uma qualidade tão acessível, é ridículo. Ridícula é também toda a aura de grandiosidade que está circundando O Regresso, o pior filme da carreira de Inárritu.

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O sexto filme do diretor é feito no mesmo processo de seus anteriores, que é apegar-se a um elemento específico do filme anterior. A transição de Amores Brutos para 21 Gramas, por exemplo: mantém-se as tramas paralelas, a granulação e a brutalidade estética e temática, e troca-se o elenco restrito, o caráter mexicano pelas estrelas hollywoodianas, adicionando, também, inserts de trechos do filme, que, ao invés de dar um tom de atemporalidade misteriosa, só contribui para aumentar a previsibilidade dos acontecimentos. Já de 21 Gramas para Babel, os cortes rápidos antes usados para provocar mistério dão, dessa vez, uma sequencialidade viciosa, que rima com a temática em discussão do filme, mas soa, no final das contas, como uma reprodução ampliada globalmente do que já fora exercitado nos dois primeiros filmes.

A virada na filmografia ocorre em 2010, com Biutiful, em que a parceira com o roteirista Guillermo Arriaga é rompida, dando lugar a Nicolás Giacobone e Armand Bo. A união dos iniciantes, com a fixação do diretor mexicano resulta numa história mais contida, que pelo seu isolamento ilusório de temas maiores e pela preocupação com apenas um eixo de história, ao invés de diversos acontecimentos que podem, ou não se encontrar, mostrou-se, da fase naturalista de Iñárritu, sua obra mais bem resolvida e potente. Substitui-se a freneticidade da edição de Babel por uma preferência por um ritmo mais bem calculado, que dá atenção para o trabalho de Javier Bardem, rimando tematicamente com o conteúdo da vida e da morte. Quatro anos depois, Birdman surge com uma aparência mais original. Se antes era criticado pela quantidade de cortes, apelou para o extremo da ausência, como já detalhado. Embora foque-se agora no eixo artístico, ao invés do cotidiano, a globalização e o intimismo se mantém, porém se desprende da identidade suburbana, associada ao cinema independente, e toma corpo no glamour, ou em sua falta, exemplificado nas cenas que usam computação gráfica. Torna-se, pois, mais acessível.

O fiasco, fruto de planos feitos desde 2001 por uma equipe totalmente diferente e da euforia da celebridade que acabara de sair com três Oscars, apriomora, não no bom sentido, o esforço de Birdman de fazer longas tomadas, ressaltando o contemplativo, embora repita os enjoativos rodeios pelos atores. Nem a boa vontade de Leonardo DiCaprio e de Tom Hardy conseguem salvar o roteiro e o ritmo mal construídos.

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Tal como a maioria dos filmes de Inárritu, tem mais de 150 minutos de duração, e são seus 150 mais insuportáveis. O CGI que antes funcionava como uma crítica às grandes produções, agora é a faca de dois gumes de O Regresso. O ataque do urso, que embora funcione dramaticamente, cheira a mofo, e daqui a algum tempo datará. O mesmo vale para as outras cenas que usam este recurso computadorizado. Em contraponto a esse recurso, a fotografia sem o auxílio de luzes artificiais é belíssima, e envolve perfeitamente o trabalho com os figurinos e com o estilo de história. O azul e o branco contrastam com a violência pesada da trama, infelizmente banalizada pelo excesso.

Baseada em uma parte do livro de Michael Punke, conta uma história real, vivida pelo caçador de peles Hugh Glass, que, após ter sido atacado por um urso, tem seu filho morto por um dos parceiros de expedição e é deixado enterrado vivo. O tema mais latente que pode ser percebido nas linhas do roteiro é a questão da oposição entre a civilização norte-americana e a população indígena. Seria aceitável se trouxesse um olhar novo, mas é tão estereotípico que nem vale descrever. Assistir ao trailer do filme é o suficiente para prever os acontecimentos. O único elemento dele privado é a cena do ataque do urso, mas ler a sinopse basta. É verdade, “a vingança é um prato que se come frio”. Mas, sem os devidos cuidados, apodrece.

Está aí o que retém de Birdman: a ostentação e a postura reacionária. Ao simular o entendimento poético com uma plasticidade de encher os olhos e reprimir sua particularidade crítica, prefere entregar algo intelectualmente confortável, tão nocivo como os blockbusters mais tolos. Curiosamente, foi lançado ao mesmo tempo do mais recente filme de Tarantino. Ambos se passam nos EUA, num cenário repleto de neve. São ambos, de certa forma, faroestes. Todavia, enquanto Os Oito Odiados é um exercício de gênero, que usa do estudo cinematográfico para homenagear e reviver diversas posturas, de maneira sincera, além de guardar uma acidez característica, arriscada, O Regresso se dedica a entregar a falta de substância velada em minimalismo e contemplação, mirada em um seleto de grupo de fantasmas produtores de homenzinhos de ouro.


Henrique Artuni

Estudando a mais pura forma da inocência desde algum período de tempo atrás. No mundo imaginário, aprendiz do Jornalismo.
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