Henrique Artuni

Estudando a mais pura forma da inocência desde algum período de tempo atrás. No mundo imaginário, aprendiz do Jornalismo

O serviço necessário de Spotlight

Passados quatorze anos da investigação, Spotlight revive a força de repercussão de um tema que não é novo, mas impacta, e persiste, até o presente.


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Os casos de pedofilia que envolvem a Igreja Católica, se citados trivialmente, não causam mais tanto choque. São, de certa maneira, como os cotidianos anúncios de corrupção que pipocam na mídia, e, mesmo que envolvam diretamente uma Instituição, acabam não se mostrando tão importantes assim para a evolução social.

Irônico é ver a relação desafortunada entre conhecimento e fé: Spotlight - Segredos Revelados surge como um apelo quase nostálgico, evocando um frescor da energia de filmes do tipo (com Todos os Homens do Presidente como seu maior símbolo), ou seja, uma valorização do estilo de jornalismo clássico, e possui a fé como o seu maior motor. Não só tematicamente, mas também na fé em que os jornalistas tem em seus trabalhos e na grandiosidade da matéria que estão escrevendo, contagiando o espectador com a mesma ânsia investigativa, sem nunca exibir qualquer perfil heroico.

Analisar um filme desse gênero nos dias de hoje é se deparar com uma obra fora de seu tempo. Entretanto, a competência de todo o trabalho, juntamente de um timing perfeito, ajuda para que os objetivos do filme, e da propagação desse trabalho tão importante, tornem-se mais notórios. Quem chegaria à imprevisibilidade da World Wide Web, onde os anos de pesquisa, confirmação e processos burocráticos seriam substituídos pelo puro vômito emocional de 140 caracteres e gritos em frente à câmeras conectadas ao mundo? Mais incrível seria prever um trabalho de tamanha importância vindo de Tom McCarthy, que um ano atrás estava dirigindo uma comédia adam-sandleriana.

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Dos últimos longas inspirados em fatos, Spotlight é um dos poucos que mostra que veio não só para arrematar algumas estatuetas, mas para executar um trabalho que muitos cineastas só conseguiriam no âmbito estético, infelizmente. Não há nada de novo no filme, não é um grande marco visual, nem um retrato que mereça ser coroado. E justamente pela falta dessas qualidades, que não são necessariamente defeitos, torna o filme tão notável. McCarthy aposta na segurança, e usufrui de sua limitada influência para conseguir estrelas representativas. Depois da derrota de Michael Keaton, em Birdman, do prêmio de melhor ator no Oscar, este trabalho soa com um sino de afirmação, trazendo um papel muito mais contido, preciso. Se é uma conformação velada, ao menos é uma bela grinalda. E não perde nada para Mark Ruffalo (que conseguiu, no mínimo, invocar simpatia), Rachel McAdams ou qualquer outro ator da redação. Todos conseguem transmitir a autenticidade dos jornalistas, seja do mais experiente, com o comportamento calculado, até a única mulher no grupo, sendo ela a que mais sofre perante suas raízes católicas, entrando em conflito com o cotidiano de sua vó e, consequentemente, com os seus costumes.

Tal como um bom repórter, o filme não perde o foco. Mesmo que alguns acontecimentos secundários despontem aqui e ali, são só escapes do massivo trabalho investigativo, e servem como pontos de contato com o cotidiano, e do como existem falhas e tabus em qualquer lugar. Se a personagem de Rachel McAdams entra em conflito com os costumes familiares, o de Brian d'Arcy James preza pela segurança de seus filhos e conhecidos após descobrir que um dos clérigos acusados mora próximo a sua casa.

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Outra decisão acertada foi a utilização de rostos não familiares ao grande público na hora de retratar as vítimas dos abusos, ampliando a verossimilhança e a noção de fragilidade que a sociedade inteira está exposta. Surpreende, logo em seguida dos encontros com as vítimas, uma conversa cara a cara com um dos molestadores, pondo à prova qualquer resquício de sensibilidade que o espectador poderia ter dessas pessoas, apresentando-se num discurso cinicamente racional. Tão seco quanto a oposição dos ambientes de trabalho dos dois lados: as igrejas são mais sombrias, opressoras, reclusas, ao passo em que a redação do The Boston Globe é iluminada, frenética, funcional (isso para não dizer da clara plurissignificação que o título carrega).

Não é nenhum vale a pena ver de novo, afinal, sua importância maior é fora da sala de projeção. E, mesmo que surja como um árvore estranha no jardim, carrega muitos frutos, e a época da colheita não poderia ser melhor.


Henrique Artuni

Estudando a mais pura forma da inocência desde algum período de tempo atrás. No mundo imaginário, aprendiz do Jornalismo.
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