vida - manual do usuário

Amores, dores e tudo mais sobre a aventura de viver.

Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura.

CONSUMISMO E COMPULSÃO

Acredita-se que três em cada dez brasileiros seja um comprador compulsivo...


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Quando chegou ao meu consultório, S. tinha dívidas com a administradora de quinze cartões de crédito, uma dívida com o banco três vezes maior que o seu salário mensal e seu comportamento já ameaçava seu emprego e sua vida conjugal. Estava fazendo uso de uma medicação antidepressiva e seu relato era: “eu preciso comprar algo todos os dias”. S. tinha menos de trinta anos e sua vida estava muito pior do que ela podia enxergar. Em sua casa, dentro de armários e gavetas havia roupas, maquiagem, perfumes, sapatos, bolsas e bijouterias que nunca haviam sido usadas, muitas ela escondia para que o marido não visse. Com o tempo fomos percebendo juntas que ela nutria uma grande frustração desde que o pai saiu de casa, e, desde então os comportamentos compulsivos começaram. A necessidade de comprar foi aumentando e ela passou a só se sentir bem quando comprava, porém, a sensação prazerosa durava cada vez menos.

Desde os anos 80 quando os shoppings passaram a ser sinônimo de passeio e bem estar, houve um aumento progressivo do hábito de comprar. A psiquiatra Maria Beatriz Barbosa Silva lançou recentemente um excelente livro que descreve a compulsão por comprar, uma doença que apesar de ainda não ter sido classificada, já tem sido diagnosticada e tratada por colegas meus e por psiquiatras. O consumo compulsivo, também chamado de oniomania está relacionado a transtornos do impulso, no qual também se enquadram jogadores patológicos, dependentes de internet e pessoas que sofrem de amor patológico. A doença é desencadeada por questões emocionais não percebidas pelo indivíduo ou mesmo percebidas e vistas como frustrantes e negativas. Comprar serve como descarga para essas emoções. O problema começa porque o alívio é imediato, porém pouco duradouro e dessa forma, a necessidade de repetir o ato se torna cada vez maior – muito parecido com o que ocorre com dependentes químicos. O prazer no momento da compra é muito alto, mas passa a partir do momento que se sai da loja.

È muito comum compradores compulsivos relatarem que nem se lembram do que compraram, muitas vezes encontram sacolas “perdidas” em casa, cujas mercadorias nunca foram sequer usadas, alguma ainda mantém a etiqueta. O que um comprador compulsivo procura é a sensação de comprar, quando ele olha um produto na vitrine, passa a ser dependente dele, porém, o desejo intenso desaparece no ato da compra e, imediatamente, ele passa a desejar algo novo, que ainda não tem, e a esse algo ele liga seu bem estar, seu status – como se não pudesse viver sem aquilo. O padrão que se estabelece é um ciclo-vicioso interminável.

Acredita-se que três em cada dez brasileiros seja um comprador compulsivo e os prejuízos da doença são graves, pois afetam todos os departamentos da vida do indivíduo. O número de compradores compulsivos aumentou tanto que já existe um grupo de apoio chamado DEVEDORES ANÔNIMOS. O grupo atua no Brasil desde 1997 e tem como base a proposta dos grupos norte-americanos e europeu. O compulsivo por compras costuma negar o distúrbio, escondendo os prejuízos financeiros e compras de si mesmo, da família e amigos. Por isso, é importante estar atento ao seu comportamento e ao de todas as pessoas a sua volta, visto que na maioria dos casos o paciente só busca ajuda quando já perdeu completamente o controle de sua vida.

Os sintomas abaixo podem sinalizar um comprador compulsivo, é importante ficar atento a eles:

- Preocupação excessiva em relação ao consumo e pensamentos constantes sobre compras;

- Perda da noção do tempo quando se está fazendo compras ou gasto maior de tempo do que o planejado inicialmente;

- Consumo para aliviar emoções ruins, se animar, revitalizar a autoestima, aliviar o estresse etc;

- Hábito de fazer compras sozinho para evitar a repreensão de pessoas próximas ao que se quer comprar;

- Críticas frequentes de familiares a seus hábitos de consumo e gastos.

A demora em reconhecer que possui um distúrbio pode ser uma das maiores dificuldades do tratamento, que geralmente é feito por meio de psicoterapia e em alguns casos uso de medicamentos que ajudam a controlar o humor, a ansiedade e a depressão. Antes de começar qualquer tratamento é importante buscar a ajuda de um profissional qualificado, que pode ser um psicólogo ou psiquiatra.


Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura..
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