vida - manual do usuário

Amores, dores e tudo mais sobre a aventura de viver.

Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura.

MÃE, PAI, EU SOU GAY!

Flores são flores
Vivas num jardim
Pessoas são boas
Já nascem assim.

(Cazuza)


gay.jpg

Caros pais: se ouvirem essa frase, e eu lhes digo, agradeçam porque ela é o retrato da confiança e do sucesso na criação do vínculo com um filho. Ao longo da vida, é papel dos pais desenvolver uma relação de afeto, confiança e respeito mútuo com seus filhos, por isso, lhes digo novamente, se ouvirem essa frase, agradeçam. A grande maioria dos filhos que se descobre gay não têm essa coragem e não sentem nos pais um campo seguro e acolhedor a ponto de lhes abrir assim, tão diretamente a sua natureza sexual. Natureza sim, não gosto de chamar de opção, não acredito que alguém escolha a sua opção sexual e vou lhes dizer meus motivos.

Ninguém escolheria fazer parte de uma “minoria” rodeada de preconceito. Ninguém escolheria ser discriminado, nem ser motivo de chacota, de violência. Ninguém escolhe sofrer e não poder amar! Eu sou heterossexual e fico imaginando como seria se eu sentisse o que sinto e que isso, porém, fosse visto pela sociedade como anormal, como pecado, como falta de vergonha na cara, como promiscuidade. Fico pensando em como teria sido a minha adolescência (que já não foi das mais fáceis) se eu me descobrisse apaixonada por uma menina e, ao olhar em volta, percebesse que o que esperam de mim afetiva e sexualmente é outra coisa.

Ninguém escolhe quem ama e nem tampouco do que gosta. Acredito que todos que me leem nesse momento já se apaixonaram e sabem do que eu falo. Agora, se coloquem no lugar do outro, e imaginem aquela paixão acontecendo com alguém do mesmo sexo, daquela mesma forma, com aqueles mesmos sintomas – porque é assim que acontece. Quando descobrimos nossa afetividade e nossa sexualidade, ela acontece carregada de paixão, da ideia de amor indestrutível. Ser gay não é ter vontade de transar com alguém do mesmo sexo: É AMAR ALGUÉM DO MESMO SEXO! Desejo sexual todos nós temos, e a maneira como nos comportamos sexualmente independe da escolha de quem seja nosso parceiro. Ser promíscuo não tem absolutamente nada a ver com ser gay. O que vi, ao longo dos anos, dentro e fora da profissão, foram pessoas homossexuais caindo em promiscuidade exatamente por não terem sido aceitas na sociedade única e simplesmente porque se relacionam afetiva e sexualmente com pessoas do mesmo sexo. Promiscuidade existe numa escala muito maior entre heterossexuais e todos nós sabemos disso!

Somos uma sociedade tão preconceituosa que, ao comentar que eu iria escrever sobre esse tema ouvi a seguinte pergunta: “E, mas você não quer que seu filho seja gay né?” Eu disse que daria a resposta por aqui, então digo: eu não quero que me filho sofra, e isso independe de ser gay ou não, mas se essa for a natureza dele eu me preocupo sim, porque quero que ele seja amado e feliz, o que infelizmente nossa sociedade ainda não permite. Não quero que ele seja vítima de preconceito, porém estou pronta para continuar ao lado dele! Cabe aos pais amar incondicionalmente seus filhos, defendê-los e ajudá-los a se defender do mundo. A você que me fez a tal pergunta, penso que talvez se orgulhasse de ter um filho como Elton John ou Adriana Calcanhoto. A verdade é que somos “um bando” de hipócritas não é?

O que faz mal à sociedade não é a natureza sexual de cada indivíduo, mas a falta de amor, respeito, compreensão e aceitação da diversidade. Somos todos diferentes e temos todos a mesma obrigação social de viver respeitando para sermos respeitados. Cabe aos pais criar filhos que sejam cidadãos. Quando ouvirem os gritos e os manifestos de um grupo, seja de gays, de negros ou de mulheres, pense que, se houvesse mais acolhimento e menos intolerância, isso não estaria acontecendo.

Aos pais que ouvirem a frase acima, agradeçam, pois possuem filhos que os amam, acolham e façam o melhor. Deem o melhor de si, afinal, se não o fizermos por nossos filhos, por quem faremos? Busquem ajuda profissional para vocês se for preciso, enfrentar preconceitos e falsas verdades que nos foram ensinadas no passado não é fácil para ninguém. Somos uma sociedade em evolução e onde há amor, há saúde, há paz, há felicidade, há respeito.

Quero terminar esclarecendo que a natureza sexual de cada indivíduo é inata, ser homossexual NÃO É e NÃO PODE ser conceituado como doença, transtorno ou desajuste. Ninguém se torna gay, não acredito em nenhum tipo de influência sobre isso, estamos apenas aprendendo a conviver com nosso semelhante, que antes, era obrigado a se esconder. Peço aos pais dispostos a ajudar os filhos na busca por sua felicidade que coloquem o amor acima de qualquer coisa. Eu, como espiritualista assumida, acredito que o amor seja a única religião que se deve praticar.


Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Viviane Battistella