vida - manual do usuário

Amores, dores e tudo mais sobre a aventura de viver.

Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura.

O QUE OS OLHOS NÃO VEEM A PARANÓIA INVENTA

“O mundo é uma realidade universal, desarticulada em bilhões de realidades individuais.” (Miguel Torga)


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Acredito que a maioria de vocês se lembra do desfecho triste da viagem dos dois irmãos que no ano passado foram a Cancun, sendo que, um deles não voltou. Ao gravar uma mensagem, um dos rapazes pedia socorro e alegava estar sendo perseguido. Eu, e todos os profissionais da minha área que vimos à gravação, pensamos a mesma coisa: paranoia.

A paranoia é um dos principais sintomas decorrentes do uso de substâncias psicoativas como a cocaína e também de transtornos mentais delirantes como a esquizofrenia. Em ambos os casos, o comportamento paranoico é caracterizado principalmente pela distorção da realidade e da sensação intensa de estar sendo perseguido. Os quadros agudos ou crônicos de paranoia devem ser muito bem diagnosticados e a doença causadora deve ser tratada por um médico psiquiatra.

Eu costumo chamar carinhosamente a nós todos (que não estamos acometidos por nenhum tipo de transtorno psicótico) de neuróticos normais – e nós - os neuróticos normais também temos o nosso nível de paranoia. A ideia de que algo ruim vai acontecer, de que estão cochichando e falando a nosso respeito, de que estamos sendo traídos e tantas outras, muitas vezes são de origem paranoica, ou seja, não estão baseadas em nenhuma observação da realidade, são apenas criação da nossa mente, manifestos dos nossos medos, das nossas inseguranças. Todos nós já tivemos algum tipo de paranoia, e nesse caso, por um desequilíbrio entre quatro capacidades importantes na nossa relação com o ambiente; são eles: sensação, percepção, sentimento e pensamento.

Toda a nossa relação com o mundo, com as pessoas e consigo mesmo, vai depender de como e com que qualidade nós pensamos, sentimos, percebemos e experimentamos. É preciso que haja um equilíbrio entre essas quatro funções, pois elas podem ditar, ou fabricar, por exemplo, algum tipo de paranoia, com a qual iremos passar a nos relacionar como se fosse realidade. Ao tratar como real uma ideia sem fundamento, os danos a nós mesmos podem ser enormes. Imaginem que, num ambiente de trabalho um colega, ao ver um grupo conversando, imagina que falam mal dele e passa a lidar com isso como se fosse mesmo um fato. Essa informação modificará completamente a formo como ele ira agir com eles. Todo paranoico se sente perseguido e diante disso, foge e se acua ou se arma e ataca. O fim pode ser trágico.

Somos diferentes e, por isso, muitos usam melhor o pensamento e a percepção, enquanto que outros se relacionam com o mundo e consigo mesmos baseados apenas nos sentimentos e sensações. No caso das paranoias há sempre uma deficiência de pensar, raciocinar e perceber – os sentimentos e sensações são sempre mais fortes. Voltemos ao exemplo, numa festa, você acha que alguém está falando de você. Antes de se relacionar com essa ideia, tente usar as suas quatro ferramentas para confirmar mesmo se trata-se de um fato antes de ir dando barraco, tomar satisfações ou simplesmente entristecer-se por isso. Nem todos que olham em nossa direção, olham diretamente para nós – o campo da visão humana é grande – lembre-se disso. Quem já passou pelo meu consultório vai se lembrar do quanto eu os treinava para observar antes de inferir e de quantas vezes chegamos juntos à conclusão de que nem tudo é o que parece. Não somos capazes de observar a realidade, observamos apenas a parte dela que nosso organismo consegue, ou seja, a chance de errarmos é grande. A visão pessimista gerada pelos quadros depressivos, endógenos ou não, pode aumentar as nossas “paranoias” e nos levar a nos relacionarmos com uma realidade completamente distorcida.

Assim como qualquer estímulo é uma ameaça aos que estão em um delírio paranóide, nós, pela deficiência na qualidade das nossas relações, vamos desaprendendo de como pensar, sentir e perceber o outro. Passamos a manifestar nesses episódios apenas o que aflige a nós mesmos. Uma pessoa que tem sempre a sensação de que estão falando mal dela, ou que está sendo traída, ou que algo de ruim vai acontecer é uma pessoa insegura, amedrontada e que tem se relacionado pouco ou de forma ineficaz. O melhor treino para o pensamento, os sentimentos, as sensações e as percepções é viver e se relacionar. Quem se isola acaba adoecendo. Desde cedo treinamos as crianças a ler ou a ouvir uma história e, sem seguida, contar o que ouviram e expressarem suas opiniões sobre o assunto. Percebam que ao contar a história, elas usam a percepção (auditiva e visual) e o pensamento. Em seguida, falam do que sentiram e das sensações que tiveram. Percebam que, na vida adulta, vamos abandonando esse exercício e nos contentando com a nossa - muitas vezes - distorcida visão dos fatos. Quanto maior e mais saudável é o nosso contato com o mundo, mais perto chegamos do outro e da realidade – que – pasmem, é muito mais difícil de ser vista do que se pensa.

Nem tudo, ou melhor, quase nada é o que parece.


Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura..
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