vida - manual do usuário

Amores, dores e tudo mais sobre a aventura de viver.

Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura.

RECALQUE

Se todos nós somos invejados, quem são os invejosos?


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Recalque. Eis uma palavra que tem sido muito usada nos dias de hoje, porém, acredito que pouca gente saiba da abrangência do seu significado. Dentro da psicanálise, recalque é sinônimo de repressão e é um dos conceitos fundamentais desenvolvidos por Sigmund Freud em sua obra. Significa rejeitar uma ideia, pensamento, desejo ou mesmo lembrança. Atualmente, as pessoas têm se referido ao recalque como um manifesto de pessoas invejosas. O indivíduo em questão, ao sentir inveja, seria então um recalcado, assim o recalque viria do impulso agressivo que toda inveja esconde.

Vocês também já devem ter visto aos montes, assim como eu, as manifestações nas redes sociais, nas quais as pessoas confessam ser alvo de invejosos e recalcados. O que eu nunca descobri de fato é quem são esses indivíduos, visto que nós todos somos sempre as vítimas. Nunca vi um invejoso ou recalcado confesso, mas se vocês ainda não sabem todos nós carregamos repressões, recalques e talvez alguma inveja. São impulsos que fazem parte da estrutura da nossa mente e que precisam vir à consciência para serem trabalhados e superados.

Se você se preocupa muito com a inveja e o recalque alheio e acredita que ele seja sempre canalizado para você, é preciso criar um pouco mais de consciência da sua insignificância. Nenhum de nós é o centro do universo. Será que você é tão invejado assim? Será que alguém vai de fato lhe fazer tanto mal? Talvez um pouco de humildade possa acalmar seus ânimos.

Um segundo ponto- e este é muito importante - é: pessoas muito preocupadas com a inveja são pessoas invejosas. Tudo que lhe preocupa no outro faz parte de você. Se você tem muito medo da inveja e acha que todas as pessoas são recalcadas e que você as incomoda, é porque o seu foco é esse, ou seja, você se defende de um impulso que sabe que existe - exatamente porque o tem.

O terceiro ponto é uma pergunta que quero fazer: Será que você não age de modo a provocar a inveja e o recalque? Será que os olhares invejosos não estão lhe dando algum tipo de prazer? As redes sociais têm promovido possibilidades de exibirmos principalmente o que temos e que os outros não podem ter. Seja o corpo, o local, ou até mesmo a comida; pessoas fazem questão de mostrarem-se. Será que o que queremos de fato não é chamar a atenção? Será que no fundo, mas bem lá no fundo a nossa mente não grite assim: "Morram de inveja, seus recalcados!”

Somos feitos de dois impulsos: o amor e a agressividade. Amamos o que temos e, muitas vezes, agredimos o que não podemos ter. Desejar o que é do outro é o manifesto da insatisfação consigo mesmo – e cá entre nós – como é difícil contentar-se com o que se tem em um mundo que se tornou uma vitrine de fotos fabricadas e de gente idealizada. Eu, particularmente não acredito que a inveja tenha esse poder avassalador de destruir que muitos acham que tem. Penso que ela faz mal sim, mas somente para quem a sente - o invejoso é um infeliz. Invejar é querer ter o que não se tem, é querer ser o que não se é. Invejar é acreditar que o que está fora é melhor, é se negar a olhar para dentro, a se relacionar consigo mesmo. O recalque, a repressão são impulsos que adoecem.

Não existem vítimas nem vilões, somos apenas seres da mesma espécie, caminhando em busca do conhecer-se – ou seja, deixe a inveja e o recalque – digo - os seus e o dos outros para lá.


Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura..
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