vida - manual do usuário

Amores, dores e tudo mais sobre a aventura de viver.

Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura.

SOMOS TODOS RACISTAS?

“Nem te conto o que se passou comigo nos onze anos em que ocupei posição de alta responsabilidade”. (Joaquim Barbosa)


racismo.jpg Nos dias de hoje acho difícil que alguém assuma em alto e bom tom que é racista. Falar de racismo é falar da história da humanidade e falar de uma sucessão de erros e equívocos cometidos pela nossa espécie ao conceituar e segregar a si própria. Somos todos da mesma espécie, mas a cor da nossa pele varia, e varia muito – até porque foi se misturando e se modificando ao longo da nossa jornada por aqui. Falar de racismo é falar de preconceito – e este para mim é um dos piores males. Eu sou loira, minha pele é extremamente branca e eu já fui vítima de preconceito na adolescência por isso. Se eu tivesse a pele negra, certamente as coisas seriam bem piores. Era bem difícil e sofrido para mim ouvir as piadinhas de mau gosto que as pessoas da minha idade faziam comigo porque eu sou mesmo branca demais para os padrões brasileiros – e ser negro é bem pior que isso - mesmo em um país de maioria negra, onde gente da minha cor é que é exceção.

Há algumas semanas ouvimos muitas notícias sobre a repórter Maria Julia Coutinho, que foi vítima de ataques racistas nas redes sociais. Logo em seguida surgiram aos montes postagens de apoio à Maju e autoafirmações de “não racismo”. Como se ninguém fosse racista! Como se o racismo não existisse! O racismo existe sim e o pior deles é o que vem mansinho - como vieram as piadas à minha brancura. Aquele racismo silencioso que sussurra: “Não sou racista, mas não me casaria com um negro”. Como se o amor fosse escolha... O racismo existe sim, e ele é aquele que diz: “Não sou racista, minha babá era negra”.

Quer saber mesmo se você é racista? Pergunte a si mesmo se você gostaria de ter nascido negro, ou mulato. Olhe ao seu lado, caso esteja na universidade e veja quantos negros existem na sua sala. Talvez se você seja médico ou advogado, você possa se incomodar mais com um negro como colega de trabalho do que com uma branquela fototipo um como eu, que tenho a cor da pele completamente fora dos padrões desse nosso país tropical. A verdade é que há muito racismo em quem não se incomoda com o negro como garçom, mas se incomoda com o negro como engenheiro. Há muito racismo em quem acha linda a “exceção” de gente como Thais Araujo, Pelé e Milton Nascimento chegarem aonde chegaram.

Caso você esteja perguntando a razão de uma psicóloga escreve sobre isso, voltemos ao preconceito. Ser vítima dele é causa de grande dor, de grande angústia, de muito sofrimento. Se fôssemos uma espécie menos preconceituosa e menos propensa a segregar a si mesma, seríamos mais felizes – e nós, psicólogos, combatemos junto dos nossos pacientes, a dor, que muitas vezes vem do preconceito. Não são raros os casos nos quais o racismo separou afetos, machucou e matou. O racismo proliferado é aquele que permite que tenhamos amizade apenas com o negro rico. É aquele que nos faz tietar Djavan, mas que, provavelmente nos faria mudar de calçada se ele mantivesse a mesma aparência sem nenhum sucesso artístico. O racismo nos fez aplaudir Alexandre Pires, entretanto, se o encontrássemos na fila do caixa eletrônico, no início de sua carreira nos anos noventa, ficaríamos com medo de assalto.

Talvez seja o momento de sermos menos hipócritas e caminharmos para a evolução da nossa espécie. Assim como a pelagem nos felinos é diferente nas cores, é também o tom da nossa pele. Talvez já esteja mais do que na hora de criarmos coragem de sair dos nossos velhos e falsos valores e crenças para percebermos o quanto ódio existe por trás de tudo isso. Não é postando “somos todos isso” ou “somos todos aquilo” que vamos caminhar para o fim do racismo. Comecemos nós mesmos a assumir nossas verdades. O preconceito mata. Jamais mataria Maju, mas mata os desconhecidos como nós. Pense nisso.


Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura..
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