vida - manual do usuário

Amores, dores e tudo mais sobre a aventura de viver.

Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura.

VEM DOZE DE JUNHO PORQUE EU VOU LHE USAR!

Se você está vivo, você pode amar e se você pode amar você pode comemorar. Se o amor é cego, surdo ou mudo, o importante é que ele existe.
Se é amor, não morre!
Então, eu declaro que no dia doze de junho, todos estarão perdidamente apaixonados: pelo outro, por si e pela vida.


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O dia dos namorados vem ai, mas esse ano vai ser diferente.

Vai ter presente, jantar e a lingerie nova. O vermelho paixão adesivado nas vitrines não vai incomodar nem acordar a úlcera. As bexigas em forma de coração vão causar alegria, um sorriso tímido e aquela sensação maravilhosa de pertencer ao clã que comemora a data.

As propagandas na TV não vão dar aquele impulso de destruir o aparelho da forma mais violenta que exista. Vai ter conversa gostosa na copa lá no trabalho sobre os restaurantes mais legais e sobre as promoções dos motéis. E para tornar a coisa mais sensacional ainda, o dia doze de junho vai cair na sexta e a previsão do tempo diz que vai estar frio.

Vai ter vinho, luz de velas e quem sabe, na loucura do amor, o fim de semana possa ser em Monte Verde. Já notaram como os casais gostam de exibir os dias românticos que passam nas pequenas cidades onde têm chalés? Então esse ano vai ter chalé! Chega de praia, praia só em janeiro, praia é para solteiro!

Vai ter uma semana de regime para ficar em forma e se sair melhor na noite de amor. Tudo bem que quem se preocupa muito em murchar a barriga não goza, mas quem tem companhia no dia dos namorados goza sim. Goza dentro e fora da cama, em público, comprando o presente, exibindo o status na rede social, que, alias, hoje em dia substituiu lindamente a aliança de prata. Cada um goza como pode.

Depois de décadas, não vai ter “jipe encalhado”. Não vai ter balada dos solteiros - aquelas para tentar fazer barulho, bem no estilo “rodízio de carne em sexta-feira santa”. Dizem que quem está seguro não precisa dessa gritaria toda, mas os solteiros berram a felicidade desparceirada aos quatro ventos tanto quanto os não católicos babam sangue da picanha na sexta-feira santa. Quanto maior a exposição, menor a autoestima, mas esse ano vai ter doze de junho sim, com beijo, abraço e aperto não só das mãos.

Vai ter olhar seguro, sorriso no rosto e condição física e emocional de ouvir Sade, Roupa Nova e Fabio Junior sem chorar - principalmente quando ele canta Alma Gêmea. Aquilo não é música, é uma arma branca em todos os sentidos! Vai ter Vinícius de Moraes aos montes e não só no Soneto A Quatro Mãos. Vai ter Chico Buarque cantando Eu Te Amo e vai ter Marisa, Adriana, Ana Carolina e Isabella até entupir o âmago. Vai ter comédia romântica e todos os filmes de amor "não comédia" que não são assistidos desde o início da última década.

Esse ano o dia dos namorados promete - e cumpre!

Vem doze de junho que eu vou lhe usar! Porque esse ano não vai ter nó na garganta, nem estranheza, nem blasfêmias sobre o mundo injusto, sobre o universo paralelo que conspira contra os amantes e todas as teorias espiritualistas que justificam encalhamento na lama do amor não correspondido. Doze de junho esse ano vai ser feliz porque aquela marca de perfume fez a campanha pelo amor e não pelo protocolo, e transformou a data num lindo baile de carnaval onde as fragrâncias são espirradas na fuça de quem ainda acha que existe algo mais importante do que amar.

Ninguém pode com o amor e mesmo que muita gente não o suporte, ele não morre, apenas muda de direção. Esse ano o dia dos namorados vai bombar porque finalmente descobriu-se que estar infeliz nessa data é opção. Opção de quem está mirando a flecha em alvo errado, de quem está com as mãos ensanguentadas por ter acertado sempre a ponta da faca, de quem teve seu amor raro jogado no aterro sanitário. Esse ano vai ser lindo para todos porque eu declaro que todos estão libertos do amor não ou mal correspondido. Declaro libertos da dor, todos que conseguem amar. Então cai de boca e mergulha nesse doze de junho perfumado com fragrância do Boticário, porque chegaram os novos tempos. Tempos de amar-se e de então amar.

Em cada canto, no dia doze de junho, vai ter gente vendo TV, gente cuidando do bebê recém nascido, gente trabalhando no pedágio, gente internada em hospitais, gente passando frio e fome nas ruas, gente servindo as mesas nos restaurantes românticos, gente tocando em bandas e bares para embalar beijos, gente dormindo, gente de plantão, gente nas guaritas dos prédios e dos motéis, gente arrependida, gente nascendo e gente morrendo. E todos estarão perdidamente apaixonados.


Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura..
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