vida - manual do usuário

Amores, dores e tudo mais sobre a aventura de viver.

Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura.

EU QUERO A SUA PRESENÇA

Não quero estas palavras nem muito menos estes coraçõezinhos e estas flores virtuais. Isso não me basta.


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Que fique claro que eu não sobrevivo sem a presença do outro e que esta presença nada tem a ver com esses “eu te amo”s , esses corações e flores que chegam neste pequeno aparelho que carrego como se fosse uma bomba de insulina ou um marca passo - sem o qual eu morreria.

Que se constate que os seres humanos viveram por séculos sem qualquer outro tipo de relação que não fosse a real. Meus avôs e meus bisavôs se conheceram e se amaram sem nunca terem se comunicado virtualmente. As mais belas histórias de amor não estão estampadas em fotos no Instagram e sendo-lhes bem sincera, quem vê Facebook não vê coração.

Que se perceba que, se as cartas de amor pungentes nunca serviram para matar a saudade, tampouco servirá para o mesmo fim toda essa parafernália barulhenta e sem vida.

Que se observe que os emoticons de coração e flores não são nada além de uma ilustração e que não são formas confiáveis de se demonstrar sentimento. Pode-se enviar um desses por acidente, entretanto é quase impossível dizer eu te amo a alguém por engano.

Que se conclua que precisamos da presença, do toque, do beijo, do cheiro, dos cabelos, da conversa ouvida e falada, das mãos entrelaçadas, dos corpos colados, das pernas confusas e do olhar cúmplice na alcova amorosa.

O amor começa e termina no olhar.

Que nos livremos das meias verdades enviadas e recebidas em palavras e bonequinhos amarelos de feições padronizadas que podem ser direcionados a qualquer um, tal qual fossem um spam, um panfleto, um vale-compras.

Que nos libertemos dos infinitos erros de interpretação, dos mal entendidos, das confusões e da dor. Se o afeto não chega inteiro quando se relaciona virtualmente, assim também se faz com a agressividade. Tudo na dimensão virtual é fragmentado, é parcial, é meia verdade.

Amar a gente ama quem é real e só quem é real é que pode fazer parte do nosso mundo virtual.

A carta, o telégrafo, o telefone e tudo que veio depois serve apenas para facilitar a comunicação entre as pessoas e não para ser a relação em si. O mundo virtual jamais nos bastará para suprir esta necessidade da nossa espécie de estar com o outro e de amá-lo.

Ao amar-se - e só depois de amar-se - é que vem a necessidade e a capacidade de expandir este amor e de direcioná-lo a quem nos encanta, a quem os nossos olhos enxergam com ternura. Para amar é preciso estar perto, é preciso da presença.

A presença é que traz o cheiro, é que nos mostra o olhar, é que nos arrepia a pele. É a voz do outro que nos hipnotiza e nada disso acontece virtualmente.

O amor virtual não basta. Sem a presença o sentimento morre de inanição. O amor precisa de alimento e só se pode alimenta-lo na dimensão do real, através dos cinco sentidos. As palavras e os emoticons alimentam apenas a nossa visão e este é justamento o mais fraco sentido quando se trata de amor, porque o amor – eu lhes garanto – é cego.


Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura..
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