vida - manual do usuário

Amores, dores e tudo mais sobre a aventura de viver.

Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura.

SE TODOS FOSSEM IGUAIS A VOCÊ...

Uma homenagem ao homem que me aceitou como filha. A história de um homem simples que mudou seu destino sem jamais abandonar seus princípios.


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Não, você não é perfeito, mas se todos fossem iguais a você em suas qualidades poderíamos estar vivendo em um país melhor.

Se todos fossem iguais a você não haveria fome neste país tão rico porque você nunca permitiu que nenhuma comida fosse jogada fora dentro de casa. Se todos fossem iguais a você os bancos e financeiras lucrariam bem menos ou quase nada porque você sempre nos ensinou a viver com a metade do que se ganha e a guardar a outra metade para quando fosse preciso ou então a investir em algo que desse retorno.

Se todos fossem iguais a você é bem provável que todos os artigos de luxo encalhariam nas lojas; sejam estes carros, roupas ou comida. O luxo nunca fez nenhum sentido para você que não conhece um centavo ganho sem luta, sacrifício e muito trabalho. Você nunca se deslumbrou a ponto de gastar altas quantias em nada cuja função pudesse ser exercida por algo que custasse bem menos.

Se todos fossem iguais a você não existiria nenhum tipo de ostentação. Nunca vi você fazer nada que fosse para chamar os holofotes para si. Nunca houve um dia no qual você tivesse admirado quem esbanja e joga dinheiro fora em coisas que não agregam ao crescimento pessoal e ao espírito.

Se todos fossem iguais a você não haveriam greves, nem manifestações violentas nem berros sindicais em megafones nas portas das empresas. Você - que já foi empregado e já foi patrão - sempre seguiu uma regra: trabalhar e cumprir seus deveres para depois exigir seus direitos. O seu discurso sempre foi de que cada um deve fazer a sua parte e buscar o melhor. Você sempre foi pacato, nunca agrediu e sempre aceitou a sua realidade com paz e fé, seja esta realidade boa ou ruim.

Se todos fossem iguais a você as crianças aprenderiam dentro de casa que tudo só se conquista com trabalho. Elas aprenderiam que não importa o que o outro tem ou o que o outro conquistou e aprenderiam que cabe a cada um construir sua história e viver de acordo com o que tem, olhando para dentro e não para fora. Você sempre disse que poderia se almejar o que se quisesse, mas que só o trabalho árduo traz sustento, dignidade e honra ao homem.

Se todos fossem iguais a você todas as crianças tocariam um instrumento musical e também falariam inglês. Você sempre priorizou dar educação, conhecimento e cultura aos seus filhos mesmo nunca tendo estudado música e nem línguas. Sem jamais ter comprado para eles nada que fosse caro, você deu a eles bons instrumentos e bons livros. Em tempos difíceis você deixava de leva-los para comer pizza, mas sempre pagou para eles as melhores escolas e nunca os tirou de nenhuma das aulas extracurriculares.

Se todos fossem iguais a você todos os funcionários das empresas receberiam diariamente um bom dia do superintendente que, ao chegar para o trabalho tão cedo quanto quem limpava sua sala, recolheria um o outro clip do chão e diria com voz doce que não se pode desperdiçar nada.

Se todos fossem iguais a você a jornada de trabalho seria de no mínimo doze horas diárias, seguidas de trabalho voluntário da pastoral da igreja, na associação de empresários e comerciantes da cidade, na escola de pais e em tantos outros órgãos para os quais você contribuiu com seu tempo, com seu trabalho, com sua ajuda e com a sua dedicação porque sua grande paixão sempre foi participar, contribuir, ajudar. Se todos fossem iguais a você não haveriam gritos, apenas o diálogo. As pessoas te ouviriam por um longo tempo e acabariam convencidas por seus argumentos simples, porém profundamente persuasivos.

Se todos fossem iguais a você a escola seria coadjuvante porque você nasceu autodidata e aprendeu quase tudo sozinho, mesmo tendo tido a humildade de se matricular em cursos para aprender a falar em público sem nunca ter tido receio algum de trocar alguns Ls por Rs como fazem as pessoas nascidas e criadas na zona rural.

Se todos fossem iguais a você as crianças laçariam os cavalos no pasto às cinco da manhã para que a charrete pudesse levá-los até a escola sem nunca desistir nem debaixo da chuva e elas não perderiam um dia de aula até que finalmente já na adolescência houvesse enfim um caminhãozinho que servisse de meio de transporte.

Se todos fossem iguais a você as pessoas não desistiriam de acreditar que somos nós os responsáveis pela nossa história e que a construímos com o suor do nosso rosto. Se todos acreditassem no que você acredita, as pessoas seriam felizes - independente do pouco ou do o muito que possuem - e jamais almejariam mais do que pudessem ter porque estariam mais preocupadas em ser felizes.

Se todos fossem iguais a você cada casa teria uma horta no fundo do quintal, uma reserva de dinheiro para a velhice e um casaco para os dias frios tal qual na fábula de La Fountaine. Haveria as férias de quinze dias e mais um ano todo de trabalho. Nas férias seria permitido tocar e cantar no aparelho de videokê como faziam cigarras, todavia o resto do ano seria trabalhando como as formigas. Não seriam férias de luxo, mas mesmo as lembranças de carregar as cadeiras de praia debaixo do sol ou de carregar a caminhonete toda deixariam saudade.

Se todos fossem iguais a você as menininhas de baixa visão poderiam se transformar em adolescentes nerds questionadoras e bravas, depois em jovens inexperientes cheias de razão e poderiam bater cabeça até que um dia finalmente aprendessem a verdade da vida e passassem a escrever e a assinar uma coluna neste jornal e em outros sites na internet.

Se todos fossem iguais a você meu pai, eu não estaria vendo um décimo da violência, do desemprego e da pobreza que vejo no nosso país.


Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura..
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