vida nihil

Há MENOS coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.

Malu Porto

Escritora multimídia, mestre em Cinema e Estudos de tela, e militante do partido das dúvidas. Suspeita que, na maioria das vezes, entender a pergunta é mais importante do que buscar por repostas

Vida, o filme

Se hoje em dia estamos mais preocupados em filmar e fotografar nossas vidas do que em vivê-las de fato, como ficará a nossa subjetividade neste futuro em que se produz mais registros que memórias?


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Em relatos de pessoas que tiveram uma experiência de quase-morte, naquele ínfimo segundo em que toma-se consciência de que está para partir desta para uma melhor, é recorrente escutar frases como: “vi toda a minha vida passar diante de meus olhos, como um filme”. Dentre todas as artes, certamente, o cinema é aquela que se aproxima mais do nosso fluxo inconsciente. Afinal, lembranças e pensamentos são, necessariamente, audiovisuais. Ou seja, uma composição de imagem e som.

A obsessão do ser humano em documentar acontecimentos, desde que o mundo é mundo, vai bem além de um mero capricho. Nós sabemos o quanto é falha a nossa memória e quão fugazes são os momentos. Quando percebe-se, já passaram. Tal como as palavras enquanto as digito, e vocês enquanto as lêem. No entanto, fotos e vídeos são como gatilhos que ligam o projetor do filme de nossas vidas. Quando os acessamos, tudo volta. É só pegar a pipoca e esperar começar.

A escritora Susan Sontag, uma obcecada de carteirinha por fotografia, dizia que “tudo existe para terminar numa foto”. No entanto, suspeito que esse “tudo” esteja se esvaziando cada vez mais. Antes da explosão dos aplicativos e smartphones com câmeras, num recentíssimo passado, registrar imagens dependia de certo planejamento. Afinal, não era todo dia que saíamos com uma máquina a tiracolo por aí. O registro era algo mais reservado para momentos que fugiam à nossa rotina como férias, comemorações em geral, cerimônias de ritos de passagem, encontros... Era quase como se fosse apenas possível fotografar durante o final de semana. Se os mais “balzacos”, como eu, derem uma espiada nos álbuns ou filminhos de infância, vão ter a mesma impressão de que raramente há uma foto feita num dia útil ou comercial -– a não ser aquelas dos primeiros dias das aulas ou de quaisquer outros primeiros dias.

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Até aí, nada de novo. Nós mudamos o mundo, o mundo nos muda e o presente está dado. Mas e o futuro? Como essa produção vertiginosa de imagens que estamos fazendo do que vivemos, e mesmo do que não vivemos, irá afetar a maneira como acessamos nossas lembranças?

Em uma das passagens finais da tragédia de Fausto, na obra-prima do alemão Goethe, o protagonista encontra-se à beira-mar, profundamente entediado. E enquanto observa o repetitivo movimento das ondas, a monotonia rapidamente transforma-se em revolta e ele é acometido por um poderoso insight: o quão impotente é o ser humano diante da força da natureza. O trecho diz mais ou menos assim:

“Cresce, incha, rola, se desfaz, e alaga. A árida vastidão inútil plaga. Impera onda após onda, agigantada! Para trás volta e não realizou nada. E me aborrece aquilo! É-me um tormento!”

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Imagino a dificuldade que o pobre Goethe teria atualmente para adaptar o mito do homem que vendeu a alma ao diabo, sendo que provavelmente Fausto estaria de celular em punho, bem mais preocupado em articular o melhor ângulo, enquadramento e filtro do registro das ondas, do que de aborrecer-se com o tédio de suas repetições. Sem contar no tempo gasto para elaborar engenhosas hashtags como: #olhaaonda #vaievem #marzaodedeus #comoumaondanomar.

Posto isso, eu pergunto: o que o Fausto de hoje se lembraria ao olhar a foto das ondas em seu Instagram? Certamente, não seria de uma epifania sobre a relação do homem com o mundo. Se antes, bastava apenas uma imagem para suscitar mil e uma lembranças, como ficará a nossa subjetividade a partir desta nova era em que se produz mais registros que vivências?

Caso estejamos realmente caminhando para este “lugar” em que nós nos ocuparemos mais de filmar ou fotografar nossas vidas do que de vivê-las de fato, qual seria a diferença entre sair de férias e assistir a um filme sobre as próprias férias?

No “clássico” de ação sci-fi de Schwarzenegger, O Vingador do Futuro –- que em inglês tem um nome muito mais sagaz de Total Recall, algo como Lembrança Total, na livre tradução --, o pacato construtor Douglas Quaid, por andar estressado com recorrentes pesadelos, vai até a clínica Rekall Inc. para que lhe implantem uma falsa memória de um divertido fim de semana. No entanto, o tiro sai pela culatra e Quaid acaba descobrindo que, na verdade, é um agente secreto de uma missão em Marte. Mas isso, infelizmente, não vem ao caso.

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Porém, será que o futuro não será exatamente assim? Se uma das grandes preocupações de quem tira férias é documentar e registrar todas as experiências, por mais banais que sejam, não seria até mais barato e prazeroso implantar um chip com um filme artificial na cabeça? Dependendo do “pacote”, a Rekall Inc. poderia até “selecionar” os melhores momentos, editar um trailer bacana e postar no seu Instagram/ Facebook enquanto você “curte” a aventura tropical de sua cápsula, sem interrupções, com direito a bronzeamento artificial e tudo.

Se os vídeos são os protagonistas dos shows e das festas em vez da música e da dança, as paisagens viraram apenas cenários bonitos para o BG de nossas fotos, e os relacionamentos, um meio para mudar de status no Facebook, como seria o filme que veríamos se a vida passasse diante de nossos olhos?


Malu Porto

Escritora multimídia, mestre em Cinema e Estudos de tela, e militante do partido das dúvidas. Suspeita que, na maioria das vezes, entender a pergunta é mais importante do que buscar por repostas.
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