viés do avesso

Olhares e manifestos de uma alma insurreta.

Cely Couto

Cely, 26 anos, comunicóloga, redatora e eterna idealista. Feminista por sobrevivência, libertária por coerência, indignada por essência

Elogio do Amor Livre: revolução sexual feminista pré-1960

Se já sofremos com a invisibilidade de autoras mulheres na História, o que dizer de uma escritora anarquista, feminista, desafiando a monogamia e a moral sexual burguesa em plena guerra civil na década de 30? Toda a contemporaneidade da discussão sobre amor livre, liberdade sexual e matrimônio foi preconizada pela militante anarquista Amparo Poch y Gascón, especialmente na obra Elogio do Amor Livre, que merece nossa atenção e traz grandes contribuições para os debates atuais.


Sarah Petruziello.jpgArte: Sarah Petruziello

“Quero amar no extenso ‘além’ que nenhum muro fecha e nenhum egoísmo limita.” Em tempos contestação do modelo tradicional do amor romântico, a frase caberia perfeitamente em um zine libertário, em um artigo sobre poliamor, ou até mesmo em uma coluna de relacionamentos de uma grande revista. Mas o que o torna tão especial é seu contexto único: trata-se de um trecho do poema Elogio do Amor Livre, escrito em 1936 durante a Revolução Espanhola pela militante antifascista Amparo Poch y Gascón - uma mulher muito à frente do seu tempo.

A história da obra fica ainda mais interessante. A Doutora Amparo, formada em medicina, foi uma das fundadoras do grupo anarca-feminista Mujeres Libres e sua revista homônima, porta-vozes oficiais das mulheres durante um dos movimentos revolucionários mais expressivos e obscurecidos da História. Foi na Espanha entre 1936 e 1939, em plena autogestão de trabalhadores nas fábricas e no campo contra o capitalismo, que ela lutou pela liberdade sexual das mulheres, derrubou o princípio da monogamia e atacou a moral sexual machista sustentada sobre o matrimônio e a prostituição. Além de escrever sobre saúde e política, Amparo escolheu também a poesia para expressar seus ideais emancipadores:

amparo.jpgAmparo Poch y Gascón (Google)

“I. Tome a pétala fresca e suculenta; tome a polpa doce da fruta madura; tome a senda esbranquiçada sob o sol do poente, a colina de ouro, o carvalho, e a fonte na sombra. Tome meus lábios e meus dentes onde brincam as risadas como fios de água, e os fios de água como risadas.

II.Eu não tenho Casa. Tenho, sim, um teto amável para resguardar você da chuva e um leito para que você descanse e me fale de amor. Mas não tenho Casa. Não quero! Não quero a insaciável ventosa que enfraquece o Pensamento, absorve a Vontade, mata o Sonho, quebra a doce linha da Paz e do Amor. Eu não tenho Casa. Quero amar no extenso ‘além’ que nenhum muro fecha e nenhum egoísmo limita.

II. Meu coração é uma rosa de carne. Em cada folha tem uma ternura e uma ansiedade. Não o mutile! Tenho asas para ascender pelas regiões da pesquisa e do trabalho. Não as corte! Tenho as mãos como palmas abertas para recolher moedas incontáveis de carícias. Não as acorrente! […]”

Elogio del amor libre. Revista Mujeres libres, número 5, Julho de 1936. Tradução do espanhol por Natália Montebello.

Apesar do momento de insurreição, os companheiros anarquistas ainda reproduziam o modelo patriarcal burguês de relacionamentos e a instituição do casamento. Para Amparo Poch, a monogamia e a possessividade estavam diretamente relacionadas à propriedade privada e ao Capital, por isso ela descontrói a ideia da “casa”, de encerrar o amor entre quatro paredes e aprisionar as mulheres no espaço doméstico, propondo novas formas de relacionamento pautadas na liberdade e autonomia ao invés de um contrato para a manutenção da ordem familiar. Como esperado, enfrentou muita resistência na época, principalmente da parte dos homens que lutavam pela transformação socialista mas não reconheciam a opressão de gênero e a divisão sexual do trabalho no movimento.

Elogio do Amor Livre é um marco literário do pensamento feminista e libertário, que traduz de forma sensível o princípio do amor livre. Como a própria Amparo declarou, “É indispensável o reconhecimento pleno, por parte da sociedade, de todas as formas de união amorosa; essa é a saída autenticamente revolucionária e libertadora.” Em outros textos, como “A mulher em defesa“, a autora expressa claramente sua rejeição à ideia de posse: “Este homem é meu e eu sou sua, disse. A Propriedade encolheu seu pontudo nariz de agiota, piscou seus repugnantes olhos e todos os regimes de opressão aumentaram as cifras de suas vítimas.” E mais importante, também se preocupa em propor soluções de forma acessível e lúdica, em trechos cativantes: “E então, mulher, apaixonadamente apaixonada, não peça por seu amor.[…] Invente o novo tipo; ponha o sal na Vida; a cor e a chama nos beijos desiguais. Aprenda a desaparecer e a desobrigar de sua presença; e a conhecer o valor do “eu” livre. Sem nada; nem por dinheiro, nem por paz, nem por sossego...Amor Livre!”.

ni santas ni putas.jpgProtestos atuais (Google)

Sobre a dicotomia moral que classifica as mulheres entre "recatadas e vadias", ainda vigente na sociedade, Amparo é categórica: "A Vida está cansada já da Mulher-esposa, pesada, demasiado eterna, que já perdeu as asas [...] está cansada da Mulher-prostituta, à que resta apenas a raiz sucintamente animal; está cansada da Mulher-virtude, séria, branca, insípida, muda [...]". Assim ela combateu os estereótipos de gênero e estimulou as companheiras a abraçarem sua diversidade, a se reinventarem enquanto mulheres livres dos papéis engessados do patriarcado (com ressalvas para a estigmatização da prostituição, uma discussão muito mais complexa). Nos seus textos ecoam as máximas da agenda feminista como "Nem santas, nem putas, apenas mulheres!", gritos que só iriam às ruas mais tarde e que, infelizmente, ainda se mostram necessários.

mujeres libres2.jpgMujeres Libres (Google)

Sua atualidade impressiona pela ousadia, por desafiar os tabus da sociedade burguesa e pela versatilidade na escrita. Amparo produziu manuais de orientação para a maternidade consciente, publicou artigos sarcásticos sobre as movimentações da guerra civil, criou personagens irônicos para dar voz às suas críticas como a Doutora Salud Alegre (que ela própria ilustrava na revista Mujeres Libres) e ainda expressou com delicadeza e subjetividade a polêmica relação entre afeto, sexualidade e poder dentro do movimento. Se pouco sabemos sobre a experiência política das trabalhadoras e trabalhadores da época, que coletivizaram a economia, aboliram o desemprego e colocaram em prática o comunismo libertário, menos ainda conhecemos sobre sua produção cultural – especialmente de autoras mulheres.

Muito antes do amor líquido, relacionamento aberto, crushs e amizades coloridas, antes do Woodstock, antes mesmo da dita Revolução Sexual de 1960, Elogio do Amor Livre já debatia o amor e a liberdade e combatia a imposição do matrimônio como única forma legítima de amar. Desde então, as relações afetivas e sexuais sofreram grandes transformações e o debate avança a cada dia, passando pela desconstrução do ciúmes, contestação do amor romântico, declínio da família tradicional, e mesmo a crítica das próprias relações livres que têm reproduzido modelos de repressão e sexismo. No meio de toda essa efervescência, é inspirador encontrar referências em uma autora e sua obra feminista de quase um século atrás, que merece ser reconhecida pelo seu valor cultural e visionário.


Cely Couto

Cely, 26 anos, comunicóloga, redatora e eterna idealista. Feminista por sobrevivência, libertária por coerência, indignada por essência.
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