vira vento

previsão do estado de tempo: nortada

silvia costa santos

Vive no centro histórico do Porto. Coleciona vira ventos, folhas de sala, amostras de terra dos lugares por onde vai passando. Recorda como, aos catorze anos, testes psicotécnicos apontam resultados inconclusivos. Encontra muito sentido no critério da busca por Chagall para [amigos] ser [poetas]

eu - público do shortcutz - me confesso

No início era descer as escadas da Vitória para entrar no Hard Club e trazer mais sete histórias. Mas o Porto está maluco, os ventos no norte nunca foram certos e basta-nos um verão para ficar tudo virado. Agora às quintas saio, mas para um quarto andar: Maus Hábitos, que perspetiva culturas da cidade desde 2001. Estamos a ficar mal habituados. O Shortcutz está mais independente do que nunca.


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A fórmula é simples, passa por [aconteceu qualquer coisa na tua vida] seguido de [fizeste uma curta]. E depois, num registo normal e se já és dos cinemas, podes tentar oferecer uma carreira a essa curta. Não é? Mas, imagina que nem dos cinemas és, imagina que és só artista; o que fazes ao ficheiro? Achas que querias vê-lo em tela? E agora imagina que vias esse ficheiro em competição direta com os melhores realizadores que encontras no teu país. Porque tudo começa pelo confronto com o teu país. Tudo livre. A candidatura é livre. O tema é livre. Tu és livre. O público também é livre de sair. Até eu aqui a escrever agora sobre o Shortcutz, pelo menos para escrever sou público livre. Can you please send the film legend to english? É que com tanta liberdade e independência até quem é só artista acaba por manter crescimento.

O formato não complica muito a competição. De ciclo semanal confronta duas curtas-metragens por sessão. Existe um júri. Não precisa estar presente, precisa sim estar muito concentrado em respiração vital para mensalmente escolher - gostei mais desta. E há sempre mais curtas, e projetos, e videoclips, e spots, e docs, há lançamentos, tudo o que seja passível de ser filmado; e ciclos de cinema, e festivais e acesso a mais vírgulas de possibilidades, porque existe sempre a apresentação de alguém que pretende filmar ou projetar qualquer coisa. Concetualmente mais livre, perderia ângulo. E claro é preciso o espaço, procura sentar-te ali, a equipa apaixona-se, projeção. Ali cervejas, ali chá. Cabe sempre mais um. Na frente poufs, respira. Câmara. Ação.

Quem se envolve também são as próprias equipas de criação, tão presentes. Chamadas à conversa após cada exibição partilham experiências, opiniões, conhecimento. A equipa chega a uma máquina cinematográfica e encontra um público, só privilégios em esclarecimentos mútuos no poder para formar. Vi realizadores responderem a todo o tipo de perguntas - porque há públicos de todo o lado, desde particularidades técnicas vindas de estudantes de cinema, a curiosidades soltas vindas de turistas.

Se a fórmula me parece simples, Luísa Sequeira iluminada. Mulher das catorze abordagens e apresentadora das nossas sessões, reuniu os patrocinadores que até hoje a acompanham - em bem receber, poder para bem espalhar - e assume direção executiva e de programação na raiz do projeto no Porto. Parece-me que o terá feito sobretudo, por um fundamentalismo antigo: o cinema dos portugueses. Mas ao migrar (2010) o formato com que Rui de Brito havia contaminado Lisboa, edifica a possibilidade da movimentação. O que no mínimo será uma porta aberta sobre o longe e a miragem das redes de distribuição.*

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Santa Catarina, Brasil é (2014) a mais recente independência do Movimento Internacional de Curtas. A miragem conta já com doze vértices - novas cidades, de Viseu a Utrecht e Amsterdam, Madri - Berlin, Vila Real pop Dublin, back London - Faro call. Acontece mesmo, na penúltima sessão vi uma curta holandesa.

Aquilo que não tenho documentado, e não tenho capacidade de memória para perceber, passa por quantas sessões terei assistido no Porto. E poderá surgir o cinzento sobre a legalidade que existe para afirmar, em consciência, determinadas conclusões. O Shortcutz está para mim como uma volta ao quarteirão. Uma noite na semana, alguns filmes é certo mas sem ligação a tv ou internet em casa; a caminhada para ver cinema em tela será por uma das cidades mais misteriosas do mundo. Acredito que por ter, quase todas as noites, pelo menos quinze minutos de nevoeiro. O que encontras de português nisso? Foi o que encontrei de Shortcutz nisto. Fui consultar arquivos. Fiquei a pensar.

O que encontrei documentado na memória foi um som puro de lenha a arder sobre Valdemar Santos calado, é cinema e ele calado, uma das curtas-metragens exibidas na fase inicial do Shortcutz Porto, em novembro de 2010.* Mas (quantas?) curtas terão passado, quantas curtas terei visto em cinco . vamos na sexta . épocas de competição? Do novo que se acabou de fazer; não é outra, é a curta que foi produzida no último ano. Todas tão diferentes entre si, o que nos estica tanto a passadeira ver de tudo. Do orçamento zero [intervalo gigantesco] ao que nos chega altamente premiado. E em todas apenas um denominador comum - qualidade cinematográfica. O consenso é, hoje em dia, geral. Consenso é domínio do plural. E a escolha pela qualidade pré requer coragem. É simples, é coragem. Ou agora não? Ergueu-se, adquiriu referência própria ao sustentar lotação esgotada em programação semanal.

Nunca senti que o Shortcutz procurasse apenas uma das estéticas no cinema, ou que caísse na redoma de afunilar estilos de uma solitária elite. O filtro parece-me sempre haver sido outro, porque eterna deve ser a procura pelos motivos certos. A tela aqui é democrática. Também sai para brincar às disciplinas. E as coisas giram e mudam de lugar e se tu não estás atento, atento como quando vês cinema, o argumento passa-te ao lado. O filtro para a programação vem dos sentidos. Vem de um treino que só atinge quem é, antes de qualquer outra coisa, cinéfilo de paixão. A tal iluminada Lu. Encontrei na generalização do que a diverte, sim do que diverte a diretora de programação, a educação gratuita nos meus dias.

Acesso a cinema em dimensão real - parece uma contradição, não é? Mas foi o que me aconteceu no Shortcutz, aconteceu-me a generalização do acesso ao virar de um pano. O mundo real não pode ser de quem já está no abstrato. O mundo real tem ainda por condição o anonimato. Dispo-me mais ainda: é domínio do irrealizado. Têm de existir nas cidades onde vivemos processos cinematográficos ainda vistos desde o plano real, sonhadores sem ossos. Só daí me fará algum sentido esperar uma genuína inovação. Não?

Mesmo hoje é ainda o que mais lhe procuro. O Porto tem trajeto próprio de pessoas que se associam e abrem portas culturais, procuram o ponto em que as coisas se tocam, sintonias, promovem Maus Hábitos em bons ambientes. Quero os meus, os daqui - de agora, quinta à noite, quero mais dois reais a quem [aconteceu qualquer coisa] seguido de [fizeram uma curta]. Quem faz cinema, cinema code mode miragem fará. Quero cinema do português complicado, tão simples. Rio tanto. Quem são?

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-- * [E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem] José Régio | Shortcutz Porto sessão #007 . fotos Mia Tintin Shortcutz Porto . linka-me mucho lu sequeira shortcutz porto maus hábitos


silvia costa santos

Vive no centro histórico do Porto. Coleciona vira ventos, folhas de sala, amostras de terra dos lugares por onde vai passando. Recorda como, aos catorze anos, testes psicotécnicos apontam resultados inconclusivos. Encontra muito sentido no critério da busca por Chagall para [amigos] ser [poetas].
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