vira vento

previsão do estado de tempo: nortada

silvia costa santos

Vive no centro histórico do Porto. Coleciona vira ventos, folhas de sala, amostras de terra dos lugares por onde vai passando. Recorda como, aos catorze anos, testes psicotécnicos apontam resultados inconclusivos. Encontra muito sentido no critério da busca por Chagall para [amigos] ser [poetas]

apontamentos sobre roupa ao vento

Foi a Gisela quem me o disse. Banco de jardim, sol de domingo, turistas, vinho e povo. Fachadas - É proibido, sabias? Acho que permitem se for nas traseiras. A roupa a secar ao vento, na fachada não. É proibido. A Gisela não estava a brincar. Domingo de roupa a secar. A lei do prende por duas molas é regulada pelo poder municipal.


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Uma cidade para ter energia positiva tem de produzi-la. Até pode importar, é fácil confundir o âmbito de livre circulação e mandar vir quatro camiões de vida e alegria. Mas depois esgota-se. O que nos chega pela metodologia [sugar] esgota-se muito rápido, a luz apaga. E enquanto a própria cidade não produzir, no sentido do positivismo, luz própria - pode durante umas horas sugar um modelo de energia, que funcionou num determinado local para determinadas pessoas mas depois poufh de tão pequeno, tão aquém do além mar.* A energia tem, antes de qualquer outro esforço, borbulhar dentro. A construção deve começar desde esse ponto. A não acontecer a cidade ficará apenas perdida daquilo que a define a si mesma, por tradição e identidade. Fica longe, fica cada vez mais longe das diferenças que nela gorgolam todos os dias, e uau: por energia própria. Ninguém se perdeu, continuamos a falar de fachadas. Só que também do que está vivo atrás delas.

De volta ao misterioso nevoeiro percebo que o Porto tem obra mundial e histórica, tem beep em continuidade na humidade: a mesma que vos embala o Vinho, a mesma que não nos seca a roupa. Existiram preocupações na arquitetura sobre a vivência coletiva no centro da cidade, as habitações são colocadas em torno de uma fenda ao sol, mas com dois socalcos se constrói uma cascata.* O que nos trouxe os recantos improváveis para confissões de amor - eu sei, porém a tendência é para edifícios estreitos com áreas reduzidas, um império de racionalidade nas dimensões. O património é da humanidade, a estrutura fica. O desafio passa por tirar partido das caraterísticas originais dos espaços e haver descoberto na vida espiritualidade q.b para leave the gun, take the cannoli.*

Ter uma varanda ajuda muito, obrigado. As tentativas de abertura ao exterior passaram pelo rasgo de luz em espaços tão interiores e o desdobrar em desculpas é representativo. Vãos envidraçados, recortes de telhas em vidro, inquestionáveis serão as clarabóias. E tantas! A sensação é que a procura do exterior chegou à imaginação antes da disciplina urbanismo chegar à população. A cláusula era obrigatória: humidade. A roupa lava-se no Douro. Seca-se na rua. Nem área para uma solução interior, ou um espaço mediador, oferecem as casas.

Mas estas coisas da humanidade são maravilhosas porque explodem por afinidades. A roupa a secar ao vento nas fachadas é uma das imagens de marca de Portugal. Pano de fundo da questão identitária. Também gosto muito da velhinha parada num alto, mão na testa - mão no rim, à espera, a olhar para o mar, tão velhinha e ainda à espera. Só pode ser amor, tanta espera e saudade. Felizmente para Portugal, quem ergue uma imagem de marca é o recetor. Não é claro para mim, se pelos meus trajetos diários encontro mais turistas escondidos aos beijinhos, ou a fotografarem a nossa roupa a secar. Não ver nisto rasgo espontâneo para brand equity parece-me só tonto.

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A fotografia foi tirada em Madri, 2013. O que é ter uma janela e o que pode acontecer nela. Desde domingo que me sinto estranhamente melindrada, sinto que um bem natural tão adquirido . o vento . me foi regulado, minimizado no acesso - As nossas cordas, sabia? São proibidas.

- Mas então menina onde querem eles que a gente seque a roupa?

- Dona Estelinha, foi precisamente a minha conclusão esta semana. A única explicação que encontro é tratar-se de um erro por ingenuidade, os meus favoritos: os da inocência. Inocente 1: o senhor legislador nunca viveu um ano nestas casas do centro histórico, o senhor legislador não percebe o que a noite levanta ao rio. Inocente 2: o senhor legislador consegue prever na sua economia doméstica o excesso de consumo na energia que traz uma máquina de secar a uma vida como a nossa - Ai menina! - até porque o senhor legislador consegue, ainda antes disso, comprá-la. Inocente 3: o senhor legislador, mental legislador, legisla com os formatos que estagnou por viver num apartamento com quatro quartos, sete corredores, três metros quadrados para um salão de lavandaria. Inocente 4: o senhor legislador resolve qualquer pensamento sobre roupa lavada com contratação de serviços, vinte peças por vinte euros. Inocente 5: o senhor legislador dona Estelinha, nunca tratou da sua própria roupa na vida. Money - money, must be funny in the rich man’s world.*

A dona Estelinha e eu estamos incluídas na zona de afetação protegida pelo regulamento da Câmara Municipal que prevê a proibição dos formatos habituais quando o assunto é secar roupa nas fachadas portuenses. Com a ajuda do público, atingiu lugar em [Perguntas Frequentes].* Uma pergunta tão frequente parece-me não ter acalmado solução suficiente. Quem regula pode determinar o não - no que toca à alteração da estrutura de uma fachada no núcleo histórico. O que quem regula não pode ambicionar é que se esconda o camião de vida e alegria que é viver nele.

Porque pomos uma árvore no natal e arejamos colchas com as velas da procissão, vais lá pôr a bandeira a pedido do treinador da bola. São só expressões, sinais de gente. [Imigration is not a crime] e por duas vezes, uma companhia de teatro precisou das nossas varandas para a sua apresentação. Quem me dera. Dera-me tanto. Daí a ouvir-se a ordem sobre balonas e bandeirinhas para uma festa ao São João é um estende e apanha de calças - toalhas - fardas, com aviso comunitário sobre início de chuva. Há pregão. As nossas janelas jamais serão alinhadas em sardinheiras. Atiço, desafio - turbilhão.

O ideal do urbanismo será encontrar a harmonia do espaço sobre pessoas. Pode ser? Uma harmonia que será codificada para pessoas com batimentos cardíacos contínuos, para pessoas que continuam a acontecer, que não se encerram no silêncio de três frases reguladas, pessoas com desesperos e máquinas de roupa por fazer, com alegrias e sentido de sobrevivência suficiente para as querer.

E se o que estiver por detrás da intenção da regulação em . roupa não . for apenas uma futilidade pomposamente esteta? Haverá mesmo vazios para tudo? Senhor turista, se fizer o favor, reflita sobre o enquadramento legal do cuecão. A cidadania prevê que eu não vá sacudir à varanda as migalhas do jantar com o Romeu. O urbanismo determina que não posso fechar a varanda numa resolução ap para lavandaria. Mas o gozo da tua cidadania ensina-te a questionar o urbanismo. Por isso é que é bom investir em cidadania, quem cá vive colabora mais com o que queremos todos: urbanismo. Parece-me que as únicas pessoas com poder moral e de regulação sobre a roupa que estendo na minha varanda são naturalmente Romeu, ou uma Estelinha por vizinha de baixo.

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-- * a marca [aquém versus além mar] está registada, a sua patente pertence a Luiz Vaz de Camões | ‘com quantos paus se faz uma canoa’, sabedorias populares | blessed The Godfather | go for Abba | and quote: “Perguntas frequentes. Posso colocar um estendal na fachada da minha casa? Não. Conforme o Código Regulamentar do Município do Porto - Parte B, a colocação de estendais nas fachadas dos edifícios não é permitida’ - informação municipal online disponível em 6 de abril de 2015.


silvia costa santos

Vive no centro histórico do Porto. Coleciona vira ventos, folhas de sala, amostras de terra dos lugares por onde vai passando. Recorda como, aos catorze anos, testes psicotécnicos apontam resultados inconclusivos. Encontra muito sentido no critério da busca por Chagall para [amigos] ser [poetas].
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