vira vento

previsão do estado de tempo: nortada

silvia costa santos

Vive no centro histórico do Porto. Coleciona vira ventos, folhas de sala, amostras de terra dos lugares por onde vai passando. Recorda como, aos catorze anos, testes psicotécnicos apontam resultados inconclusivos. Encontra muito sentido no critério da busca por Chagall para [amigos] ser [poetas]

contaminação por áurea de um palmilha

Uau, Palmilha Dentada no teatro nacional São João, não estou nada habituada.


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Muro e todas as abordagens simbólicas que te possas lembrar sobre o efeito de um muro na tua vida. Em estreia para um festival queridíssimo à cidade - FITEI, apresentação de dois dias. O espetáculo continua carreira num armazém recuperado que se dedicou às artes: o A22. Até 28 de junho, duas ruelas atrás da Sandeman, no cais em Gaia.

Inquietante q.b a morte pelo muro, não é? Há sempre um pop up à tragédia real que não nos livramos se vamos ver Palmilha. Jogaram comigo como já me habituaram, iguais a eles mesmos: primeiro obrigam-te a concentrar, na sequência dos teus pensamentos está a última pista da história, apenas a concentração na história, o teu mundo inteiro naquela história. Depois descontrais, passas ao riso e, quando já não parece ser possível - um pop up à tragédia do mundo real. É tão bom, venho para casa sempre bem disposta, os ombros no sítio relaxados pelo riso. Mas não sou só eu quem chega a casa assim, como cheguei agora. A companhia tem um público de arrastão, que paga para ser bem tratado, é o eco desse riso, o eco da identidade. O riso só se constrói pela concordância com o que ali te é dito. Se assim não fosse o público não ria, nem voltava.

Dificilmente esquecerei que o primeiro espetáculo que vi (2009) a cidade dos que partem, tinha o quê? Vinte atores em palco!? Vinte é sarcasmo mas não deixa de ser a imagem que me marcou, o movimento entre eles gerou uma energia contagiante, essa reconheço muito bem, implacável na alegria. Lembro-me também como o texto tocava na emigração que acabou por nos vir a esmagar tanto. Por falar em intemporal, não é? Mexem sempre com alguma coisa que preferíamos calar. Cheguei tarde, eu sei. Mas contamino-me regularmente. Não perdi nenhum dos vários formatos apresentados no Porto desde esse momento.

Estão cúmplices em cena, atentos, juntos. Lutam pelo espaço tão comum e próprio, a alegria de novo lá. Não existe em mim suspiro de dúvida sobre o profissionalismo e a dignidade com que aceitam um texto. Mas não sei - parece-me, o movimento Palmilha é superior aos quatro, é qualquer coisa que o Porto tem por resolver. Tem de haver uma estrutura que sustente a chamada das ramificações altamente qualificadas que eles conhecem e com quem gostam de trabalhar. E as arestas de uma produção para este palco, para qualquer palco - afinam. E não falo em metros, o texto tem razão, são os muros. Poderá sentir-se falta de tempo sobre algumas decisões mas não a falta da saúde mental, ou de evolução artística, ou de talento.

A minha relação com o teatro nacional São João é muito clara: quero comprar o bilhete, sentar-me e gostar. Não percebo claramente em que condições estarão a trabalhar, todos eles. Não percebo quando surgiram os convites, quanto tempo sobre os textos, com que agendas o FITEI teve de encaixar ao fazer convites sem garantia de financiamento. Li a entrevista ao Gonçalo Amorim e parece-me que as coisas no FITEI acabaram por ser erguidas com muita humildade e, sobretudo, com uma força que só vai buscar quem ainda tem nesta cidade o seu amor pelo teatro.

E lembro-me do último musical que vi no Teatro do Bolhão (2015). Se, há dez anos atrás, tivesse sido esse o formato proposto ao público do teatro Sá da Bandeira, onde estaríamos todos já, eu público que paga, onde estaria? Estamos a ficar por todo lado, muito cansados. E lá está Palmilha, sem garantias mas pelo menos com uma produção por ano. Quanta determinação.. Deixa-me sempre a pensar. Também do meu lugar de cadeira a olhar para dentro.

Para ser franca aquilo que até mais me incomodou foi a parte do público ovelha passiva que os últimos anos de São João educaram. Parece que estão todos a ansiolíticos. Se calhar estão mesmo. Qualquer trago que fuja da ladainha pomposa e monocórdica que - logo eu que tanto gosto de ouvir o texto - até a mim: me faz cair os olhos nas brasas, qualquer trago é recebido com ar em escândalo. Mas comedido claro, até o escândalo é ansiolítico, sem tocar, sem viver, sem sentir, quieto.

Tantos anos de falta de abertura a outros pensamentos educou um público mais fechado, não é? Potencia nele estranheza ao primeiro toque. Que pena, perder logo um primeiro toque. E até gostava de estudar estas coisas. Quantas pessoas naquela sala estavam a ver Palmilha pela primeira vez? Quantas mais virão? Que o público residente do São João não conhece Palmilha, sabemos nós. Que a cidade do Porto devia ver como Palmilha faz teatro, pois devia. E que tudo no teatro pode ser e assim, de repente - diferente, porque pode ser sem medo. E que, como público, pode-se lá estar sem pensar e gostar. Sem muro, paz. Pois pode. Habitue-se.

--- * linka-me mucho . ivo romeu bastos . nuno preto . ricardo alves . rodrigo santos * fitei . palmilha dentada . this is pacifica * é tão bom * a entrevista do Gonçalo ao público * o musical no Teatro do Bolhão * o armazém recuperado no cais de Gaia A22.


silvia costa santos

Vive no centro histórico do Porto. Coleciona vira ventos, folhas de sala, amostras de terra dos lugares por onde vai passando. Recorda como, aos catorze anos, testes psicotécnicos apontam resultados inconclusivos. Encontra muito sentido no critério da busca por Chagall para [amigos] ser [poetas].
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