vira vento

previsão do estado de tempo: nortada

silvia costa santos

Vive no centro histórico do Porto. Coleciona vira ventos, folhas de sala, amostras de terra dos lugares por onde vai passando. Recorda como, aos catorze anos, testes psicotécnicos apontam resultados inconclusivos. Encontra muito sentido no critério da busca por Chagall para [amigos] ser [poetas]

pousanito: és o maior

Ficou a obra, não é? Pai do pintor reúne e doa grande parte das peças à Academia Portuense de Belas Artes. Só podia ser notícia em 1888. Eu, nu? E agora, quem diz ao rei?


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Em termos não precisos mas orientadores gerais, a repartição do legado de Henrique Pousão: os óleos estão distribuídos pelo Museu Nacional de Soares dos Reis e Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado; os desenhos ficaram com a Academia: Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Todo, o património do pintor, está avaliado assim: - mais de duzentos trabalhos. - Mais, seguramente.*

Respiro segurança: até hoje vi 58 obras. 55 destas estavam expostas numa sala única e permanente, em Soares dos Reis. Existe e exposto, um óleo on wood no Ateneu Comercial do Porto, basta pedir na receção: suba menina, está no primeiro andar. Por falar em knock on wood: zero peças expostas no museu do Chiado. Zero na casa museu Anastácio Gonçalves. Zero na Academia. Who’s got nothingWe got nothing.* Depois vamos à rede e pesquisamos [leilões henrique pousão]. 225 mil euros.* Arrematado (2012) por uma instituição bancária e exposto em Cascais até setembro próximo. Ficamos perdidos, não é? Eu fiquei. Entra digno de ficar na Academia.*

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Projeto café concerto é a apresentação para conclusão (1872-76) do curso de Arquitetura, um dos cursos que Henrique completa na sua passagem pela Academia.* A arquitetura da época acabara de chamar Gustave Eiffel para elevação (1876-77) em tempo surpreendente da ponte dona Maria Pia. A Academia está a dois quarteirões de distância, perfeito seria o ângulo com as suas rotas diárias. São conhecidas quatro moradas nos oito anos que viveu no Porto, todas elas nas imediações da Academia.*

Passa a viver no Porto a propósito da admissão na Academia Portuense de Belas Artes, o que alcança quando tem treze anos. Conclusão de cursos: (1874) Anatomia Artística. (1872-75) Desenho Histórico. (1875) Perspetiva Linear. (1873-78) Escultura. (1875-79) Pintura Histórica onde a apresentação final foi Dáfnis e Cloé considerado digno, igualmente, de ficar na Academia.* Associados aos trabalhos surgem, e atribuídos pela Academia, louvores e prémios pecuniários 20.000 réis.* A informação mais próxima que recolhi para perceber uma possível inflação foi sobre o preço do pão: um quilo, oitenta réis.* Com um euro, no próximo domingo, compra o povo meio quilo de regueifa. Mas a comparação direta pode ser perigosa, porque a violentíssima crise de trigo impôs alarmes à época que envergonham os níveis europeus e norte americanos de desperdício alimentar.

As saídas do Porto surgem pelos períodos afetos às férias escolares e no sentido da procura do pai, poeta amador, que viveu itinerante - Guimarães, Olhão, Odemira - mas rodeado de amigos em dinâmica com a grande família. Existem obras executadas em todas elas. Ainda: Vila Viçosa, terra natal onde se reuniam quando todos estavam de férias; Castelo de Paiva com destino a uma dessas famílias tão amigas quanto - passar o natal.* Em todas estas cidades existiu trabalho, produção artística, existiu a construção do atual acervo. Entra auto retrato.

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Nas horas fora da Academia procura pontos subversivos ou indigentes da cidade. Sempre pelo belo, sempre pela arte, pela inovação, sempre por uma revolução. Parceiro, amigo e cúmplice de José de Brito.* Recebe ensinamentos particulares de mestre Costa, colecionador empírico de camélias, com quem Henrique pinta cesto de camélias.* Frequenta sessões no atelier de Soares dos Reis, é elemento fundamental na fundação do Centro Artístico Portuense, onde virá a desenhar o friorento.* Pinta arredores do Porto em plano real, com Marques de Oliveira, na mesma época em que está enquadrada casa rústica de Campanhã.* Com todos eles trabalha, com todos eles aprende, todos eles acabará por influenciar.

Do Porto irá para Paris. Concorre e ganha, como pensionista do estado no estrangeiro por cinco anos, classe - pintura de paisagem.* (1880) Madri, Toledo, Paris. (1881) Paris, Saint Sauves, Paris, Pisa, Turim, Roma. (1882) Roma, ilha de Capri - Caprile e Anacapri, Pompeia, Nápoles. (1883) Nápoles, Roma, ilha de Capri - Caprile e Anacapri para voltar a Olhão: Sorrento - Castellamar - Nápoles - Roma - Génova - Marselha - Barcelona - Valencia - Sevilha - Huelva - Ayamonte - Vila Real de Santo António, para pouco depois - voltar a Vila Viçosa e oh (1884), na semana da primavera, tinha 25 anos.* Entra cabra.

antes do sol nos rochedos de caprile.jpg

Se Henrique trabalhava nas férias escolares, posso bem imaginar Pousão obstinado na evolução experimentalista. Sobretudo focado na escalada. As minhas montanhas favoritas: Anacapri e Roma. O abandono de Paris ocorre por imposição médica e os principais destinos surgem associados a uma procura de tratamento.* Terá, desolado e abstrato, pintado Paris à noite sobre neve e partido.* Já em Roma propõe - só coragem - liberdade formal, académica e institucional à Academia.* Porto paga e Porto aceita: aluga um atelier onde trabalha de dia, do qual a mais fantástica reprodução é o cenário em esperando o sucesso - a sua obra mais estudada; e inscreve-se no Circolo Artistico Internazionale onde, durante a noite, desenha por modelo vivo.* Procura Pradila para primeira crítica.* Na montanha de Anacapri hospeda-se no Albergo Paradiso, era onde eu precisava de me albergar, na ramada e muro com vasos e um pátio de Nicola Farace.* A cabra na montanha, teimosa e lutadora, corajosa e obstinada, em Capri, na montanha. Só que a cabra está lá em cima. Vê mais longe.

É tão fácil sonhar, está tão à mão. A doação salvaguardou a obra física de Henrique pelo tempo. E ensinou-me que [pensamento sobre o futuro] estiveram tão presentes no filho, como no pai. É que não é só de tontos pensar neles - nos pensamentos, nos leilões, nos futuros, até porque tonto é quem não sabe que terá eventualmente de os educar. Existe uma investigadora que revela dificuldade no percurso de localização das criações de Bernardelli, seu parceiro de avenidas em Roma e Capri.* O nome Pousão está efetivamente à guarda das instituições públicas de topo na hierarquia. Há quem garanta que as obras são dirigidas por desempenhos competentes. Quem é que garante? Pois, não eu. Lamentavelmente quem encontrei mais entusiasmado está desempregado, ou não encontrou rendimentos na Ária. Entra escadas de um pardieiro.

Escadas de um pardieiro – Roma.jpg

É como entrar de trapézio numa rede. A rede abre a possibilidade de não ter de se estar num sítio, para cair de boca com os ensinamentos dele. São os negativos disponíveis para qualquer um, vinte e quatro horas por dia. A rede consta já na nossa memória, é um espaço para inscrição da nossa história, qualquer história, da mais comum história. A informação fica disponível para quem quiser ver. O esquema contaminou todos os níveis de comunicação entre seres humanos. Profissionais, afetivos, learning for peace ou claro, níveis de comunicação cultural. O esquema da rede é mundial. E quem entra em todos os níveis - por todos os níveis é visto. Acaba por ser simples até: mostrar para ser visto. Porém, chegamos ao nosso entrave: não na capacidade, que a rede hoje em dia tem de reproduzir e divulgar gratuitamente o valor do trabalho de um artista, mas a mensagem sobre o valor de Pousão parece não estar inscrita, ou então parece não espalhar.

Porque por vezes é só o sítio onde tu centras as coisas, a tua concentração. Depois o resto acontece, não é? Nos museus nacionais (2015) não existe o mais básico: uma folha de sala, não existe fotocópia de um mapa do museu. Pergunte ao vigilante. Nem existe o que, do princípio mais básico, se eleva: um roteiro para Pousão. - Ah, museu, roteiro virtual? Nunca ouvi falar. O quem nos direitos não parece orientado para introduzir o conceito Pousão na rede. Está tudo arrumado, escondido, guardado. O cidadão português comum entusiasmado - mas com a vida - se não refletir sobre a inversão no sentido do serviço, desiste de querer ver. O cidadão, português ou estrangeiro, comum que não o conhecer - não o vai encontrar. Assinei e repito [de acordo com a segurança que deve uma instituição impor a este tipo de registos, autorizo que me filme.]

Chamam-lhe depósito. Outras vezes, reserva. Ou talvez - por aí, chamam-lhe as gavetinhas do senhor doutor. Henrique usou um funcionário da instituição, fez dele natural modelo.* O retrato de um velho. Li demasiadas vezes o adjetivo visionário, tantas referências ao sempre gentil sentido de humor, que fico perdida agora - no porquê dos ensinamentos fechados.* Terei de pôr uma barraquinha à porta da Academia, ou à porta da Assembleia da República, com o cartaz Lê-se a sina €1,00.* E pronto, leio a sina das pessoas, passo as minhas horas, calo as minhas pistas. Entra cansada.

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Pousão assina as obras de Capri mas inscreve-as como inacabadas. Ao pensar à luz da fórmula no registo da realidade através de um modelo, como Cecília - obra acabada e admitida no Salon de Paris, percebo que a sensibilidade ao que vê, em Pousão leva-o a captar uma expressão, fotográfico, um momento, um carisma e a guardá-lo num primeiro esboço. É determinado o suficiente para desde a primeira imagem, do flash - à pintura acabada, retornar e acrescentar camadas - retornar e acrescentar camadas. A última dessas camadas, parece-me justo assumir, que será aquela luz maluca, como desde velha a dobrar, aquele brilho.

E penso em cansada inacabada e no paralelismo do seu percurso comparado, por estudiosos, ao percurso de Cézanne.* Quando uns desenhos são recebidos com verdade, quando expostos aos estímulos corretos, a uma educação capaz - um filho poderá, em vinte cinco anos, revolucionar um mundo. Li também que a capacidade critica teve de aguardar evolução até compreender o trabalho de Henrique Pousão.* Neste momento parece-me que corremos o risco de evoluir para não o merecer.

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* acervo Henrique Pousão: 1883 nu feminino - Roma | 1876 projeto café concerto - Porto | 1876 auto retrato - Castelo de Paiva | 1882 antes do sol - ilha de Capri | 1882 escadas de um pardieiro - Roma | (1882) cansada - ilha de Capri. * vídeo for mais, seguramente * news, sem humor branco, for leiloeira on fire * Continuo a fazer isto tudo com outras pessoas [Alexandra Almeida . Ana Maria Pinto . António Rodrigues . Camila Dazzi . Carla Silva . Carlos Silveira . Celina Miranda . David Celestino . Diogo Macedo . Dooley Wilson . Eduardo Martinho . Eliana Soares . Francisco Fernandes Lopes . Graziela Sousa . Isabel Freitas . Joaquim Ribeiro de Sousa . João Alves Dias . José Augusto França . José Tavares . Luís Varela Aldemira . Marta Soares . Nuno Soares . Piotr Kropotkin . Zeza Guedes] * Informações válidas para Portugal - 03 mai 2015: Museu Nacional de Soares dos Reis | 23 mai 2015: Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado | 11 mai 2015: Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto | 13 mai 2015: Ateneu Comercial do Porto | 23 mai 2015: Casa Museu Anastácio Gonçalves.


silvia costa santos

Vive no centro histórico do Porto. Coleciona vira ventos, folhas de sala, amostras de terra dos lugares por onde vai passando. Recorda como, aos catorze anos, testes psicotécnicos apontam resultados inconclusivos. Encontra muito sentido no critério da busca por Chagall para [amigos] ser [poetas].
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