vira vento

previsão do estado de tempo: nortada

silvia costa santos

Vive no centro histórico do Porto. Coleciona vira ventos, folhas de sala, amostras de terra dos lugares por onde vai passando. Recorda como, aos catorze anos, testes psicotécnicos apontam resultados inconclusivos. Encontra muito sentido no critério da busca por Chagall para [amigos] ser [poetas]

aqui nem com tinta da China

Subcultura? Novas dimensões? Reflexões, descobertas, desabafos, curiosidades, críticas, recados: as paredes no Porto não vão calar.


01.jpg

Tudo começa pelo piece of land, of wall, quarter piece for love. Há o espaço. Urbano, há o espaço urbano sem outra alusão. Existem as pessoas e a vida no seu dia a dia. E, pelo espaço fora, são edificadas formas subjetivas de se existir, de se lá estar, de intervir. Mais ou menos permanentes, mais ou menos inteligentes, mais ou menos intensamente. Existem esculturas, jardins, arquiteturas, existe o rasgo para a nossa rua. Existe a publicidade no espaço. E existe poesia. Correria. Existem licenças, orçamentos com detalhe aos ornamentos. Existem financiamentos. Existem autorizações e policiamentos. E depois existe a street art.

O problema sempre são as LETRAS. Foram. São. Pinta. Volto aqui, de novo as LETRAS. Tudo o que tenha LETRAS nas paredes da cidade do Porto. Tudo o que fala, também. Mas as LETRAS é que criam a repulsa no fiel cidadão, LETRAS aqui é que não. Ouve-se na rua, na Lola, no pão quente, sobretudo repulsa de quem passa anónimo, encolhido. Irritam-se, parece-lhes sujo. Ficaria melhor mudo, a combinar com a depressão. Parece que lhes rompe um rasgão na parede que tanto estimam mas - não sabem - que só a chuva é quem a lava, até no Verão.

02.jpg

03.JPG

04.JPG

O anterior executivo no poder municipal deixou à estrutura de funcionamento urbano um legado mute: a brigada anti graffiti. Conheci dois casos, requalificações em desemprego colocados a pintar de branco, de amarelo, de cinza as paredes letradas da cidade. E lembro de questionar: se existia um orçamento para litros de tinta passada seis, sete, oito, doze, foge, oitenta vezes na mesma área, porque não requalificar - uma vez - a parede até ao topo? As energias encostam-se, eu só me cruzo com quem não tem o poder. O registo é de 2013.

e agora o que temos.JPG

Não só a história das criações de referência foi tapada, parte das nossas histórias tapadas, os que cresceram por cá - tapadas, como qualquer tentativa de permanência é hoje um sopro de ilusão. A street art nunca foi feita para durar, lá isso é verdade. Ficará pelo menos em fotografias, nos cenários de algumas das nossas glórias, lembranças da letra de alguém.

Do flagelo das LETRAS ergueu-se agora uma cidade pintada de fresco. Escadas de século quinze pintadas, não sei com que tinta, mas fresco. A tinta ilegal da LETRA danifica a estrutura? Estrutura associada ao século quinze, incluída no núcleo histórico, no tal património doado à humanidade? Sei que é tinta também - Elisabete, logo vais ao São Pedro? Emprestas-me as tuas calças brancas? Não vais!? E emprestas-me as tuas calças brancas?

05.jpg

06.jpg

07.jpg

09.jpg

O atual executivo assumiu funções e apoiou-se na referência a um conceito que pensa como street art, fê-lo até com a movimentação de uma determinada massa. Das iniciativas propostas para intervenção artística no espaço urbano, existem duas que atingiriam algum alcance, fuh-fuh-fuh, sensação: as cabines telefónicas na avenida dos Aliados e, com o objetivo não-claro de abertura de áreas mais puras da Cidade - o azulejo do Jani na rua da Madeira. Passaram igualmente a existir licenças para street art. Mas as Escadas foram tapadas sob o atual executivo. [Com uma casa lá e não vai ao São Pedro? Não percebo.] Que confusão de ventos! E o poeta sem morrer. LETRAS fotografadas nos últimos três dias.

10.jpg

11.jpg

12.jpg

Gosto de ver o Porto erguer algumas coisas pela arte das escondidas. E até podem parecer só letras, mas não são. A beleza dependerá muito de quem vê mas às vezes, há coisas feitas às caladas tão berradas, que passam despercebidas na expressão. Gosto sobretudo da amplitude, gosto do desafio, do não-silêncio, da memória, gosto da dimensão.

Parece-me perigosa contudo, a confusão dos conceitos. O princípio da street art é a expressão livre. Foi o início de tudo. Irregulável. De cuspe social, não poderá jamais ser organizada por critérios: por exemplo, se eu fizesse um azulejo a dizer [Porto, os Ruis e os botões de roseta] - estaria no painel? Mesmo que artística e esteticamente o meu azulejo fosse irrepreensível. Estaria? A street art não pode sequer ser financiada por qualquer poder de regulação. Até é simples: pode ser fascismo. Como vem lá das direitas, acho perigoso empolar em vaidade. Se querem fazer das paredes do Porto um palco para artistas plásticos, força. Venham esses concursos a público. Mas a categoria [street art] continua a ser da rua e de quem lá a souber deixar.

15.JPG

16.jpg

17.jpg

18.jpg


silvia costa santos

Vive no centro histórico do Porto. Coleciona vira ventos, folhas de sala, amostras de terra dos lugares por onde vai passando. Recorda como, aos catorze anos, testes psicotécnicos apontam resultados inconclusivos. Encontra muito sentido no critério da busca por Chagall para [amigos] ser [poetas].
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/artes e ideias// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //silvia costa santos