vira vento

previsão do estado de tempo: nortada

silvia costa santos

Vive no centro histórico do Porto. Coleciona vira ventos, folhas de sala, amostras de terra dos lugares por onde vai passando. Recorda como, aos catorze anos, testes psicotécnicos apontam resultados inconclusivos. Encontra muito sentido no critério da busca por Chagall para [amigos] ser [poetas]

tu para silêncio eu para ruído

Estive a pensar em silêncio. Estava confusa, não percebo muito bem. Out for help.


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Corri. Corri muito, corri mesmo. Corri como se corresse com medo daquele medo de fechar. Sino da torre, rua abaixo, sou sapato, fontanário: entronco - respiro - deslaço. Não muda nada, daqui a meia hora é para ali que vais voltar. Mas corri para respirar. Corri para não voltar. Eu calada, tu descalço. É silêncio? Tu desmaias, eu num grito. É ruído? O som do vento nas árvores. É silêncio? O Francisco a rir. É ruído?

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Os filmes mudos, são silêncio? Os monges no topo da montanha, os investigadores no Ártico. É silêncio que ouvem? Um segredo contado na biblioteca, ou o escuro à noite na serra. Respirar para um espaço vazio, a paisagem ao longe pelo vidro, acordar contigo. O fundo falso do armário, o sem ar por respeito, o mudo com o susto. Pus a cabeça debaixo de água, estive sete noites num pinhal. Fui dormir para o banco no jardim, quantas colinas para o alecrim? Um minuto pelo silêncio dos decibéis ilegais, já me sentei com animais. A última vez que os sinos tocam na Vitória é às nove da noite. É silêncio? Alguém vai cantar um fado? [no noise is good noise]

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O queixo de Ana Cloro, onze anos, a tremer - Onde vais comer, Ana? Não responde e a ruga vertical, onze anos, no queixo a tremer. É silêncio? Jacinto - desabrigado inflexível, corre todas as manhãs por um jornal, já lido, no lixo, ex-consumidor de pão, viciado em informação. Maria da Graça, prostituta de rua há já vinte anos, 8:20 da manhã alonga anca com vassoura - varre o passeio para tacão, brio e dedicação. São silêncio? Duzentos mil portugueses na rua oh no no no, that's what i said - Chega a ser ruído? E se fossemos dois milhões, sacavas do apito? [Warning: perception requires involvement.]

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Há silêncio na massa, não alegria. Enquanto existir vaidade em quem não vê, existirá o nosso silêncio em massa. É a ruralidade, são os nossos códigos bem sei, quando em dificuldades fechamos e para dentro, por ação de tão pobre educação. O nosso voto é do silêncio. Na fila da sopa, na fila da neurologia, na fila do aviso de execução. Puseram-nos à espera sem poder para evoluir, apenas não-pensar para reproduzir. As redes de roupa, uma mercearia na paróquia, está tão gorda a nossa misericórdia. A segunda mão, as boleias, as ideias, sobretudo livres sem dinheiro de colchão. Não são dourados, não tem desconto. Já nem sequer te dá explicação. A abstenção é um género no silêncio, ou não? [Consume. Be silent. Die.]

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O silêncio deixa qualquer uma das probabilidades aplicáveis por fechar, por saber. Por avançar. Ao silêncio nunca se conheceu eco, recado, ou atalho possível para libertação. De dom Sebastião há, bom, silêncio and no surprises e o silêncio é um dado, sem mais dados. - Sou um pouco surdo senhor, um pouco surdo. O próprio silêncio oferece um poço infinito de ar na comunicação. Mas só silêncio porquê? Ainda respiras, achas que sabes a resolução mas o silêncio destrói a prova, não tens confirmação. Até o fumo faz mais barulho, eventualmente alguém tosse para morrer. É gelado - e sabor? desprezo - és hara kiri numa colateral negociação. A partir do silêncio não existe, para ti, qualquer evolução. [Só quero a paz de um riso sem razão.]

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O silêncio devia ser declarado direito humano. O direito ao silêncio devia ser acatado mundialmente e extremo em fundamentalismo. O direito à dignidade na recolha a um espaço próprio, também. À paragem do zum por exposição de horas ao silêncio. Devia. Tantos corpos, porquê? Devia estar tudo calado, em silêncio, mas desligado, a pensar por si próprio. Margarida Carpinteiro em tão rara entrevista conta que chega a casa e põe tudo em silêncio. Fica horas. A cabeça em sossego. Experimente! Tantas pessoas a morrer, o que é que está a acontecer? Insista. Tenha muita vergonha. Repita até à rotina. Hábito: pronto. Um mundo novo. [Sem o silêncio nada se ouviu.]


silvia costa santos

Vive no centro histórico do Porto. Coleciona vira ventos, folhas de sala, amostras de terra dos lugares por onde vai passando. Recorda como, aos catorze anos, testes psicotécnicos apontam resultados inconclusivos. Encontra muito sentido no critério da busca por Chagall para [amigos] ser [poetas].
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