virasertão

Registros, testemunhos e imersões de existências que se querem

Marcelo Ribeiro

Amor de bicicleta

Para quem já teve o prazer de andar de bicicleta saberá bem o que irei abordar. Para quem nunca andou, talvez fique com uma vontade de montar na magrela. A verdade é que andar de bike, mais do que um meio de locomoção, pode ser uma experiência de transcendência, que varia desde a sensação de liberdade até aquela sintonia de forte ligação com o outro.


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A experiência de andar de bicicleta, seja a vivida na infância ou a redescoberta de andar na fase adulta, parece proporcionar inusitadas e gratificantes vivências, que mesmo nas fugacidades dos momentos pedalados, tende a legar histórias que vão constituindo a pessoa.

Para quem já deu algumas pedaladas há de se lembrar de inúmeras coisas gostosas, engraçadas, aventurosas e mesmo amorosas. Lembranças essas que podem ser aquela descida gostosa na ladeira, o pedal ao som de uma boa música, os caminhos tortuosos percorridos, as aventuras urbanas, os desafios e sensações de superação e até aquela coisa extraordinária de pedalar com alguém em pura conexão.

Ao pedalar, mesmo que por instantes, a gente voa, a gente desliza no ar, sai do ar. Do ordinário da vida cotidiana, a poesia se instala, seja por causa do vento cortado, seja pela paisagem em movimento em câmara lenta, seja pelo sorriso esboçado e espontâneo, do ordinário brota o extraordinário e de bicicleta voamos.

Um simples instrumento formado por tubos e rodas que se encaixam no corpo humano proporcionam transformações fecundas. Curioso, não? E ainda mais agora com a necessidade de se repensar a qualidade de vida nas cidades e a questão de uma mobilidade menos poluidora, tais transformações urgem. Mas e se além de toda sorte de mudanças almejadas pelos movimentos ciclísticos, as fecundas transformações afetarem os corações humanos? Não seria isso magia? E sendo andar de bicicleta o verbo “bicicletar”, não seria este um verbo de vir a ser, de amor pedal que se quer suave no girar da companhia do outro?

Andar de bicicleta é algo verdadeiramente mágico. Falo isso porque acredito em magia, sobretudo a magia do amor. O deslizar sobre as duas rodas, a companhia, o som das engrenagens, a sintonia de tudo que rola, de tudo que roda, ou melhor, a sincronia das pedaladas, do ritmo e da cadência, seja nos pensamentos ou nos sentimentos, expressos ou em silêncios. Tudo é muito sublime. Amor de bicicleta é assim bem pueril, juvenil também. Remete aquela inocência, a toda pureza, aos segredos e cumplicidades que só pertencem aos amantes. E de sentidos e significados que explodem em vida e vontade de viver, ânsia de re-viver, de andar novamente, de pedalar mais uma vez, de sentir tudo, enfim, de novo. Como diz a canção, “tudo novo de novo”, porque não é uma pura repetição, afinal, a cada “pedal” uma nova edição do amor.

O amor de bicicleta não se encerra nela. Quer mais, busca outras estradas e se inventa em novas aventuras. O amor de bicicleta quer explorar novos horizontes, combinar sintonias, ser e estar juntos. Afinal, há tanto e tantas coisas que mal se cabem dentro havendo necessidade de transbordamentos, mas é claro que com cuidado e atenção.

Aliás, essa é prerrogativa do amor de bicicleta, pois se aprende a tomar conta do outro no sentido de cuidar, afastar os perigos, proporcionar passagens seguras. Porém, amor de bicicleta está longe do sufocamento, da monotonia da segurança que enclausura. Amor de bicicleta se lança, se joga, faz trilhas, se diverte naqueles pequenos caminhos tortuosos. E entre uma rodada e outra, uma pedalada mais distante ou mais curta, olhares, sorrisos, sensações, enamoramentos emaranhados, amor de bicicleta faz a vida deslizar, faz do acontecimento pedalar o sublime estado de amar.


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