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Registros, testemunhos e imersões de existências que se querem

Marcelo Ribeiro

Acesso as TICs no contexto escolar: uma via de mão dupla muito mais relacional do que instrumental

O texto aborda os desafios do acesso às TICs no contexto escolar. Lançando um olhar para o que pode estar por trás do óbvio, salienta-se o quanto professores e alunos carecem de destreza em relação ao manejo das TICs. Explana-se algumas situações relativas a essas carências. É pontuado, por fim, que a questão do acesso pode estar mais associado a questões relacionais do que instrumentais.


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Outro dia, em uma reunião com colegas professores, estávamos falando sobre o quanto a educação escolar carece incorporar as chamadas novas tecnologias da informação e comunicação – TICs, sobretudo no que diz respeito ao modo como os docentes ensinam, elaboram e conduzem suas práticas. Embora pareça algo óbvio, a constatação dessa necessidade chega, muitas vezes, a níveis surpreendentes. Sobre isso, costumava dizer aos meus alunos, antes de alguma atividade de campo, que não deveriam subestimar a ignorância. E por mais que achassem certa informação muito trivial não descartassem, pois algumas pessoas poderiam não ter acesso.

E é justamente sobre o acesso e o manejo relacionado as TIC que venho indagar, em um primeiro momento, se os nossos professores estão realmente aptos e ajustados a incorporá-las em suas práticas. Quando trago esta questão não estou me referindo ao uso do aplicativo recém lançado pela Microsoft ou pela Apple. Estou me referido a saber abrir uma caixa de correio eletrônico (e-mail) ou mesmo efetuar uma simples pesquisa via os navegadores comuns de internet.

Só para dar um exemplo, certa vez recebi uma mensagem, via e-mail, de um colega que escrevera todo o conteúdo no campo do “assunto”. Após responder a mensagem, perguntei ao colega sobre as razões de ter procedido daquele jeito. O mesmo disse que não sabia onde colocar os conteúdos. É claro que este exemplo é pontual, mas serve para ilustrar o quanto a ideia de acesso pode estar em níveis muito básicos.

Certamente muitos outros fatores estão imbricados a essa carência, como a própria qualidade das conexões, a estrutura dos laboratórios escolares de informática e mesmo os contextos regionais brasileiros, altamente diversificados do ponto de vista do desenvolvimento econômico e social.

Importante ainda observar o fator geracional e cultural para não cair numa compreensão, digamos, romântica, sobre a questão do acesso e do manejo a respeito dessas ferramentas. É comum encontrar crianças que demonstram incríveis capacidades com os inúmeros aparelhos tecnológicos, como aquela imagem de um bebê que já maneja destramente o tablet com o seu dedinho. Nesse sentido, há de fato uma distância, geracional e cultural, que marca um professor já adulto, nascido em período pré-digital e um aluno nascido em pleno século XXI. Portanto, é compreensível algumas facilidades e ou dificuldades em termos de acesso e manejo quando se compara as gerações.

Ao abordar essa questão do acesso há de se ter em vista que não é uma dificuldade apenas dos professores. Há que se considerar as possíveis dificuldades oriundas dos próprios alunos, mesmo que de naturezas diferentes. Em outras palavras, as dificuldades de acesso dos professores podem estar relacionadas, por exemplo, ao não saber manejar certas ferramentas, como já comentado. Em relação aos alunos, as dificuldades podem estar ligadas, em muitos casos, as limitações materiais. E também aí, apesar do aumento significativo de conexões a internet e mesmo o consumo de celulares (estima-se que há mais aparelhos de celular no Brasil do que o total de sua população), os contextos escolares são muito diversificados e, novamente, aquilo que parece óbvio pode surpreender.

Ainda naquela minha reunião com colegas professores, o assunto sobre o acesso de alunos as TICs foi comentado de maneira curiosa. É comum no métier educacional falar que os estudantes se ressentem quando os professores não incorporam as TICs em suas práticas, mas quando o contrário acontece? E quando os alunos ficam limitados ou constrangidos quando o professor, em seu afã de pós-modernidade, solicita, por exemplo, uma pesquisa na internet ou pede para produzir um vídeo nos smartphones?

Certa vez, presenciei uma situação onde um professor havia demandado aos alunos que fizessem pesquisa na internet sobre um determinado tema e mesmo havendo concordância da turma, notei um clima de preocupação por parte dos discentes. Como fiquei curioso, aguardei o término da aula e indaguei a alguns sobre a minha impressão. Os alunos disseram que na escola o laboratório não funcionava, que não tinham acesso a internet (e nem computadores) em suas casas e que os pais não dariam dinheiro para eles irem a lan house. Além disso, uns dois me confidenciaram que que não sabiam fazer pesquisa, pois o contato que tinham se restringia ao facebook.

Nessas situações é necessário que o professor tenha uma compreensão do sentido de acesso e uso das TICs. O que está em jogo não é necessariamente o uso das novas tecnologias, embora sejam importantes. O relevante é a aprendizagem do aluno, seja usando um caderno ou um computador, um desenho em uma cartolina ou uma foto tirada do smartphone. O que conta mesmo é que ele, por exemplo, no primeiro ano das séries iniciais, venha a ser alfabetizado, seja em meio digital, usando cadernos ou mesmo à sombra da mangueira, rabiscando na areia, como comentado por Paulo Freire sobre suas memórias. Esta atenção e cuidado por parte do docente é imprescindível para que não se caia no equívoco de que uma boa educação é aquela repleta da parafernália tecnológica.

Mais uma vez, repito, ao ter essa atenção e cuidado que acabei de salientar não significa alimentar um desprezo pelas TICs, até porque é papel da escola facilitar a socialização do aluno e isto passa pelos aprendizados relacionados ao uso das novas tecnologias. Além disso não se pode perder de vista que, como dizia Marshall McLuhan, o meio é a mensagem, ou seja, as TICs não podem ser encaradas como meros instrumentos, apenas meios, pois elas inauguram formas de comunicação.

Incorporar as chamadas novas tecnologias da informação e comunicação e abordar os seus acessos e manejos nos contextos escolares, sejam por professores e ou alunos, é algo que foge ao entendimento comum que, por vezes, anuncia que tudo pode ser resolvido com a simples aquisição de ferramentas tecnológicas ou a mera utilização destas em sala de aula. O acesso às TICs precisa ser pensado em mão dupla, seja pelo lado do professor, do aluno, mas também considerando suas dificuldades, limitações e mesmo os sentidos embutidos nas práticas pedagógicas.

O ter acesso as TICs passa então muito mais pelo modo como se compreende as dificuldades vividas pelos professores e alunos, em via de mão dupla, do que necessariamente pela presença ou não das ferramentas no contexto escolar. O acesso às TICs, parece ser, portanto, ao menos em alguns casos, muito mais da ordem relacional do que instrumental.


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