virasertão

Registros, testemunhos e imersões de existências que se querem

Marcelo Ribeiro

Temos o nosso próprio tempo

Como é pegar aquele tempo ou ter o cheiro dele? Lembra de quando a gente ia para escola ? Nesses casos a memória remete as cores, aos sabores e aos sentimentos. Lembra da dança, da brincadeira, do fim da tarde, os sorrisos na roda e aquele toque? O sucinto texto aborda/convida, de modo experimental, como pegar um tempo, muito ao modo experiencial.


Como é pegar aquele tempo ou ter o cheiro dele? Lembra de quando a gente ia para escola ? Nesses casos a memória remete as cores, aos sabores e aos sentimentos. Lembra da dança, da brincadeira, do fim da tarde, os sorrisos na roda e aquele toque?

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O tempo tem dessas coisas de guardar tudo em um baú vivo, de modo que não há outra maneira de acessá-lo se não entrando nele e se deixando tocar por tudo que está em seu fundo. Fundo esse não longe da gente mesmo justamente porque o tempo é coisa de narrador e que narra faz história viver.

Então só para experimentar, proponho que feche os olhos e vá para aquele lugar onde tudo começou, mas pode, se quiser, ir para um pouco antes ou um pouco depois, afinal não importa o ponto de partida porque é na viagem que a gente se encontra.

Agora voltando para lá, escrutine o que for possível, capte as intensidades, reviva as sensações, as emoções, o calor ou o frio, o estado de estar e sinta o que puder. Sinta e revivencie, pegue-a e transforme em experiência e na sua lucidez passei novamente, semelhante a uma visita.

De olhos ainda fechados e consciente da respiração, reveja nas arestas desse lado de lá os desdobramentos dos acontecimentos, as aparências em suas essências, como espumas do mar que guardam oceanos. Banhe-se e na pele, na flor da pele, perceba a mistura se dando, o encontro avançando e os elos se formando, como correntes que não prendem, mas que puxam, transmitem e interligam. Ou então como laços que não amarram, mas que unem e aproximam, mesmo na distância dos intervalos.

Ainda de olhos fechados, em imaginação mesmo, busque outros lugares, outros pontos, que até podem não ser tão doces assim, porque por vezes vem a observância de um medinho, de uma ânsia, de confusões, mas no geral há uma calma e confortável sabedoria de que tudo vale a pena.

Então como uma roda de bicicleta que gira fazendo barulhinho, zunindo naquele silêncio sem pressa, lembre do sorriso espontâneo, por nada e por tudo. E o gosto da bebida ou comida que se vai sem mesmo saber que se foi, mas ainda sim saber que foi bom!

Então, não é que temos mesmo o nosso próprio tempo!

Pegar aquele tempo é se deixar cair e aos poucos se permitir de modo que os seres de outrora revenham e reassumam suas formas e seus jeitos. E estes seres se mantém possíveis porque o vínculo per-dura, atravessa o tempo, liga como cola e cola porque co-responde, um dizendo sim e o outro também. Ter o próprio tempo, o nosso, é antes um com-partir, um partir juntos para algum lugar. De olhos fechados, inspirando e expirando tudo isso, ter o nosso próprio tempo é indizível, impalpável, proibido até, mas é revivido no privilégio de um retorno encontro sempre atualizado


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