virasertão

Registros, testemunhos e imersões de existências que se querem

Marcelo Ribeiro

Quanto dura uma paixão?

É senso comum atribuir duração ao amor e fugacidade a paixão. Há quem diga, inclusive, que da paixão, passageira que é, pode conceber o amor, que chega para ficar. Além dessas crenças relativas a temporalidade, existem ainda as narrativas que trazem certas hierarquias no que diz respeito ao amor sendo superior a paixão. Tenho pensado e vivido fortemente sobre isso. Aliás, essas narrativas parecem apenas tangenciar superficialmente as relações entre o amor e a paixão, e mesmo subestimar a temporalidade da paixão.


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É senso comum atribuir duração ao amor e fugacidade a paixão. Há quem diga, inclusive, que da paixão, passageira que é, pode conceber o amor, que chega para ficar. Além dessas crenças relativas a temporalidade, existem ainda as narrativas que trazem certas hierarquias no que diz respeito ao amor sendo superior a paixão. Tenho pensado e vivido fortemente sobre isso. Aliás, essas narrativas parecem apenas tangenciar superficialmente as relações entre o amor e a paixão, e mesmo subestimar a temporalidade da paixão.

Esse dualismo me fez lembrar a música de Rita Lee, “Amor e Sexo”, que sabiamente soube evitar possíveis dicotomias e hierarquias – embora não fale de paixão e amor. Seguem aqui uns trechos:

Amor é cristão/ Sexo é pagão/ Amor é latifúndio/ Sexo é invasão/ Amor é divino/ Sexo é animal/ Amor é bossa nova/ Sexo é carnaval/ Amor é para sempre/ Sexo também/ Sexo é do bom.../ Amor é do bem...

No que diz respeito a temporalidade, Rita Lee coloca o sexo e o amor como pertencentes a condição existencial, portanto, positivas e intrínsecas à vida.

Mesmo assim, fazendo parte da vida, a pergunta pode ficar no ar quando indagada para uma determinada vivência: “quanto dura uma paixão?” Esta pergunta ganha ainda eco quando lembro do poetinha, Vinícius de Moraes, em “Soneto de Fidelidade”. “Que seja infinito enquanto dure...” Mas quanto mesmo dura uma paixão ?

Lá no “Soneto de Fidelidade” (e não só lá, mas em toda a sua obra), ele traz também essa condição existencial, que é a tensão entre a infinitude e a finitude. “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”.

O poetinha parece reconciliar a questão da temporalidade, entre o infinito e o finito, convergindo àquilo que Nietzsche filosofou como sendo o “eterno retorno” - simploriamente falando seria a vida que sempre retorna, a vontade de potência que ressurge, a força da vida que reiteradamente emerge.

Nesses termos, ou melhor, nessa potência, a questão da morte-vida, do renascimento, aponta para a capacidade inventiva e criativa de estar se reinventando, daí que a duração se dá nos finitos e estes se criam na possibilidade da infinitude.

Aqui uma breve digressão parece se fazer necessária, que é a distinção, pelo menos que busco fazer, entre infinitude e imortalidade. A primeira tem a ver com essa capacidade inventiva, criativa e que pressupões as finitudes, ou seja, vida-morte-vida... tendo aí, portanto, a infinitude das finitudes. Já a segunda, a imortalidade, seria o próprio congelamento do tempo, a parada, o sem movimento.

Assim, amor e paixão, hierarquizados e dicotomizados, caem por terra porque estão, pelo menos em suas potências, misturados, imbricados e um retroalimentando o outro. Claro que há quem possa viver o amor sem a identificação da paixão e vice versa, mas aí é uma questão de simbolizações e reconhecimentos ou mesmo de idealização do que seja uma coisa ou outra. Mas voltando a pergunta central, “quanto dura uma paixão?”, a resposta tem sido construída, inclusive pago isso com corpo e alma, nas vivências e experiências de muitas vidas. Desse modo, para viver um grande amor só é possível em outra vida. Isto significa que a potência do amor (portanto, o “grande amor”) demanda outra vida, ou melhor, outras vidas.

Contudo, um questionamento pode se depreender daí, que é o que faz a potência do amor, o que faz a grandeza do amor, quantas vidas podem demandar o amor? Quantas finitudes...? Para mim, a potência do amor, a sua grandeza, tem a ver com a capacidade de se recriar, é o próprio acasalamento da paixão com o amor, o cruzamento de Dionísio com Apolo, a copulação das forças dionisíacas (paixão) com as forças apolíneas (amor), gerando daí o aspecto trágico, que é bem caracterizado por aquele que, ao sucumbir, emerge. Assim, a finitude é ardentemente desejada (“que seja infinita enquanto dure, posto que é chama”), como a paixão que, a despeito do inevitável destino (“Quem sabe a morte, angústia de quem vive... Quem sabe a solidão, fim de quem ama”) se assume no calor e na luz de sua chama. A finitude finda. Ao cumprir sua saga, ao findar, lega, gera, cria a possibilidade de renascer das cinzas, como a Fênix. É o milagre da vida, da plenitude. Amor e paixão, em sua dança eternal, e sobre a pergunta “quanto dura a paixão”, é obra de milagres. E mesmo para os mais céticos que, como eu, poderia estimar que aquela paixão fosse logo se perder, eis a surpresa do milagre.

E sobre esse milagre, nessa paixão evocada, não que algo tivesse morrido no sentido de amor “esfriado”, que perdeu o tesão. O milagre aponta para a capacidade de se reapaixonar via a arte criadora porque é encanto para quem está encantado. A arte da paixão-amor, do quanto dura uma paixão, vive de belezas, de bonitezas. E por isso, de todas as perguntas feitas, deixo a poesia de Gonzaguinha responder (“O que é, o que é?”):

Eu fico com a pureza/ Da resposta das crianças/ É a vida, é bonita/ E é bonita/

Viver/ E não ter a vergonha/ De ser feliz/ Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser/ Um eterno aprendiz/

Ah meu Deus!/ Eu sei, eu sei/ Que a vida devia ser/ Bem melhor e será/ Mas isso não impede/ Que eu repita/ É bonita, é bonita/ E é bonita/

Viver/ E não ter a vergonha/ De ser feliz/ Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser/ Um eterno aprendiz/

Ah meu Deus!/ Eu sei, eu sei/ Que a vida devia ser/ Bem melhor e será/ Mas isso não impede/ Que eu repita/ É bonita, é bonita/ E é bonita/

E a vida/ E a vida o que é?/ Diga lá, meu irmão/ Ela é a batida de um coração/ Ela é uma doce ilusão/ Êh! Ôh!/

E a vida/ Ela é maravilha ou é sofrimento?/ Ela é alegria ou lamento?/ O que é? O que é?/ Meu irmão/

Há quem fale/ Que a vida da gente/ É um nada no mundo/ É uma gota, é um tempo/ Que nem dá um segundo/

Há quem fale/ Que é um divino/ Mistério profundo/ É o sopro do criador/ Numa atitude repleta de amor/

Você diz que é luta e prazer/ Ele diz que a vida é viver/ Ela diz que melhor é morrer/ Pois amada não é/ E o verbo é sofrer/

Eu só sei que confio na moça/ E na moça eu ponho a força da fé/ Somos nós que fazemos a vida/ Como der, ou puder, ou quiser/

Sempre desejada/ Por mais que esteja errada/ Ninguém quer a morte/ Só saúde e sorte/

E a pergunta roda/ E a cabeça agita/ Eu fico com a pureza/ Da resposta das crianças/ É a vida, é bonita/ E é bonita/

Viver/ E não ter a vergonha/ De ser feliz/ Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser/ Um eterno aprendiz/

Ah meu Deus!/ Eu sei, eu sei/ Que a vida devia ser/ Bem melhor e será/ Mas isso não impede/ Que eu repita/ É bonita, é bonita/ E é bonita/


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