viveiro virtual

Se Deus quiser um dia acabo voando.

Giovanna Duarte

Se nada nos salva da morte, que pelo menos a arte nos salve da vida.

como lampião deu ao volta ao mundo

Adoniran Barbosa, Raquel de Queiroz e Demônios da Garoa num filme sobre Lampião. Há sessenta anos uma produção cinematográfica nacional reuniu esses grandes artistas e deu de presente ao mundo uma obra de arte inesquecível.


O Cangaceiro (Lima Barreto, 1953) conta a história de Lampião em meio a infidelidade do melhor amigo e as suas aventuras no cangaço pelo Nordeste. O longa metragem de uma hora e trinta e cinco minutos foi produzido pela Vera Cruz, companhia cinematográfica paulista que existiu entre os anos de 1949 e 1954 bancada por empresários paulistas. Milton-Ribeiro-e-Alberto-Rusc.jpg

Nos papeis principais estavam Allberto Rushel como Teodoro, Marisa Prado como Olívia, Milton Ribeiro como Galdino, Vanja Orico como Maria Clódia e Adoniran Barbosa como Mané Mole. Inicialmente o estúdio importou equipamentos e profissionais estrangeiros. Apesar de ter produzido e coproduzido 66 longas, o reconhecimento internacional, incluindo um prêmio no Festival de Cannes como Melhor Filme de Aventura, veio apenas com O Cangaceiro. Por portarem o mesmo nome, é comum que se confundam o diretor do filme com o escritor Lima Barreto (autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma). Os diálogos do longa metragem foram desenvolvidos pela escritora cearense Rachel de Queiroz e a música foi criada (por indicação de Rachel) pelo autor, também cearense, Zé do norte. A execução da trilha sonora foi executada pela banda Demônios da Garoa, que na época da gravação (1949) conheceu quem seria seu mais famoso interprete, o músico sambista, ator, humorista e radialista Adoniran Barbosa.Rachel-de-Queiroz.png

A Vera Cruz faliu com apenas cinco anos de existência devido aos altos impostos cobrados pelo governo brasileiro para produções nacionais e a desleal concorrência com obras estrangeiras, já que para elas existia a facilidade do abatimento de encargos. Os direitos de O Cangaceiro foram comprados pela Columbia Pictures, produtora e distribuidora de filmes norte americana, que tem exibido o longa por mais de 80 países durante todos esses anos. Tendo sido o longa exibido durante cinco anos somente na França.

Apesar de o cenário ser similar ao do sertão nordestino, o filme foi gravado em São Paulo, na cidade de Vargem Grande do Sul. No longa, Virgulino (Lampião) se torna Galdino. Como na história real do cangaceiro, o bando de Lampião, composto por cerca de 50 cangaceiros, transitava por cerca de sete estados do nordeste praticando crimes como roubos, estupros e homicídios. A história real de Lampião conta que quando criança, Virgulino gostava de ler e trabalhava como artesão, desde essa época usava óculos redondos, uma de suas marcas registradas. Lampião teve os pais assassinados quando adolescente e esse foi o início de sua transformação no eternamente conhecido Rei do Cangaço. Ele prometeu vingar a morte dos pais e desde que cumpriu a promessa, novos inimigos surgiram em seu caminho e Lampião nunca mais parou de matar.

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A atuação feminina no longa é algo que se destaca. Todas as mulheres do filme, ainda que algumas vezes em situação de subserviência, se impõe com forte independência. A própria Maria Bonita, esposa de Lampião, no filme, tem um caso (nada secreto) com o melhor amigo e braço direito do marido. Outras mulheres se impõe aos gritos, literalmente, perante aos homens quando esses lhe desagradavam quanto as ordens designadas.

O filme retrata em uma de suas passagens o encontro que o Rei do Cangaço teve com o Padre Cicero na vida real. No encontro, Lampião pede a “bença” ao Padre e o mesmo a oferece de bom grado desde que “Quem roubou, não roube mais. Quem matou, não mate mais”. Galdino não se agrada do trato e segue com seus homens levando do Padre o cavalo que lhe servia de transporte.

Por todo lado o longa se consagra. Os diálogos produzidos pela autora de clássicos da literatura brasileira, como O Quinze, emprestam ao filme uma sutileza inenarrável, própria ao alto escalão dramatúrgico a que ela pertencia. A música do filme, foi criada por Zé do Norte. Suas músicas foram regravadas ao longo da história por grandes interpretes da música nacional, entre eles Caetano Veloso (um trecho de "Sôdade, Meu Bem Sôdade!" foi introduzido na música It’s a Long Way do mítico álbum Transa) e Raul Seixas (com a cação Lua Bonita no álbum A Pedra do Gênesis). A música Mulher Rendeira , utilizada em toda a obra cinematográfica, ainda nos dias de hoje apresenta controvérsias quanto a sua autoria. Há quem diga que o próprio Lampião a escreveu em homenagem a avó e ao longo do tempo outros autores a aprimoraram. O certo é que no ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos Autorais) está registrada em nome de Zé do Norte. Alguns livros relatam que o bando de Lampião adentrava em suas guerras cantando o hino em coro. O desenhar da trilha sonora, executada pela banda Demônios da Garoa, dá ao filme certa leveza em meio aos disparos com armas de fogo e chicotadas, comuns na história do cangaço.

A banda entrou recentemente para o Guiness Book (o livro dos recordes) como Conjunto Vocal Mais antigo em Atividade no Brasil, a banda paulista está na ativa há 75 anos, tendo seus dois últimos integrantes originais falecido respectivamente em 2000 e 2005. Ademais a qualidade técnica oferecida pelos equipamentos de ponta (para a época) da Vera Cruz, O Cangaceiro é mais do que uma obra de arte cinematográfica, é um registro histórico de todo um povo. Seus modos de vestir, falar e viver são retratados pelos atores e produtores com um cuidado de quem parece saber o eterno reconhecimento que os aguarda no tempo.


Giovanna Duarte

Se nada nos salva da morte, que pelo menos a arte nos salve da vida. .
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