viveiro virtual

Se Deus quiser um dia acabo voando.

Giovanna Duarte

Se nada nos salva da morte, que pelo menos a arte nos salve da vida.

inúteis conselhos (?)

a arte de precisar quebrar a própria cara para aprender a viver no mundo ou a arte de deixar quem a gente ama caminhar com os próprios pés


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Disse todas as coisas que um bom amigo poderia dizer em um momento difícil. Amaciei o mundo com pedra pra provar que sofrer não mata. Eram gradativas doses de realidade por dia porque não é fácil acostumar na boca o gosto ruim da vida. Encostei sua cabeça no meu colo, no meu ombro, por vezes carreguei o peso dela em minhas costas, com amor. Vi seus pés perderem a noção de tempo, espaço e localização. E suas lágrimas? Elas estiavam e inundavam sua cara incessantemente, fazendo do meu peito um taquicardia ambulante. No seu câncer de pulmão, quem tossia era eu. Estive durante as últimas vinte e quatro mil horas com o carregador do celular sempre a mão, mais que tudo, para que nunca te faltasse companhia. Graças aos céus, o tempo, com maestria, desempenhou bem sua única função: passar. Teus passos se aprumaram num rumo, teu coração aprendeu a bater de novo e o meu ficou feliz em cessar a disritmia compartilhada. Paramos de maquiar sorrisos e nossos dentes brancos se abriram espontaneamente pro mundo, de graça. Mas em um nem tão belo dia assim você se sentou na beira do precipício. De novo.

Música de suspense na cena. E agora? Como uma galinha protege as crias, abri a boca e esbravejei tudo que pensava sobre os novos velhos riscos. Com grosseria, mais por dentro que por fora. Crucifiquei mentalmente as cinco próximas gerações de todos os seres que já ousaram te ferir. Separei minhas flechas, espadas, escudo e pedi baixinho pra Nossa Senhora do Juízo pra você não pular.

Deus, mais conhecido como Milton Nascimento canta desde sempre: "Amigo é coisa pra se guardar embaixo de sete chaves, do lado esquerdo do peito." Vou precisar abrir as fechaduras. Por amor a quem eu quero que você se torne. O lugar no coração permanece. Como é que se protege quem se ama das tristezas do mundo? Em qual loja de estofados eu posso comprar todos eles? Pra não doer quando você cair? Se eu te prender numa cerca com arame farpado, você vai se machucar tentando pular. Mas se eu te soltar lá fora, eles vão enfiar outra faca no teu peito. Teu peito, que ainda cheira a Rifocina, aguenta mesmo o tranco?

Espero que sim. Quero acreditar que você é mais forte do que eu (penso) e que vai saber decidir quais caminhos tomar. Se for o caso, pule. Eu só peço pra que você tenha cuidado, um coração é coisa frágil, e forte também, mas apronte ele para rebuliços apenas de alegria. Quando os de tristeza chegarem, eu tô aqui também. De novo. Sempre.


Giovanna Duarte

Se nada nos salva da morte, que pelo menos a arte nos salve da vida. .
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