Vivi Becker

30 anos, leonina com ascendente em câncer, aspirante a escritora das coisas, bruxa nas horas vagas, amante de café, gatos, vinho, livros, filmes, séries, moda, tarôs e misticismos.

Tallulah: Uma história sobre maternidade e vida

Uma jovem livre e independente tem o dinheiro roubado pelo namorado, e decide procurar a mãe dele para pedir ajuda, a qual se nega. Procurando restos de comida em um hotel, ela se vê envolta entre uma mãe descuidada e um bebê e faz uma escolha que vai mudar toda sua vida e seus ideais. Um filme para se ver com a mente aberta e a curiosidade de quem gosta de boas histórias e personagens bem construídos.


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Tallulah é uma produção original da Netflix, dirigida e escrita por Sian Heder, que entre outros trabalhos também escreveu vários episódios de “Orange is The New Black”, aclamada série do mesmo provedor de streaming. A personagem título, Tallulah (Ellen Page) é uma garota fora dos padrões e um tanto quanto selvagem e rebelde. Ela vive numa van, viajando pelos Estados Unidos, se alimentando de restos e sobrevivendo como pode. Ela não tem apego ao futuro, nem ambições e planos, e tem um caráter um tanto quanto duvidoso para os padrões da sociedade. Por si só, já seria uma personagem interessante de acompanhar, para pessoas que gostariam de sair numa aventura sem rumo, mas o enredo é mais complexo do que isso, e a sensibilidade com que toda a história é contada nos prende de tal forma que acabamos torcendo para que os personagens se saiam bem das adversidades propostas pela autora.

Acho muito importante pontuar os sonhos da protagonista que sempre fazem um paralelo ás dificuldades que ela está passando, como no inicio do filme, quando seu namorado propõe a ela largar aquela vida e ter uma vida estável com ele em Nova York, Tallulah sonha que está flutuando e sendo levada por alguma força invisível, mas ela se agarra com todas as forças ao furgão, como se não estivesse ainda preparada para a estabilidade e para ter uma família.

Sian Heder nos mostra no seu primeiro longa-metragem que é uma ótima contadora de histórias e sabe dirigir suas personagens de forma esplêndida. São poucos diretores hoje em dia que conseguem contar uma boa história com poucos personagens, e enredando-os com tanta emoção e significado, além do ponto alto de serem protagonistas femininas se relacionando com outras personagens femininas.

Logo de inicio vemos Tallulah passar pelo abandono de seu namorado Nico(Evan Jonigkeit),e pela primeira vez vemos como ela pode se apegar a uma situação, o que não parecia possível no inicio. Ela vai até a casa da mãe de Nico, para reencontrá-lo, mas para sua surpresa ele ainda não está lá. Aqui começamos a ser apresentados à Margo(Allison Janney), a mãe de Nico, que está envolta no processo de divórcio de seu ex-marido, e na descoberta de uma vida nova e totalmente sozinha.

A profundidade que Allison dá a personagem é muito bonita de ver, e podemos nos identificar diversas vezes, mesmo que você não seja divorciada ou mãe. O dilema dela é muito palpável e real, ela tem profissão, é uma mulher independente, mas vê todo o paradigma de sua vida ser mudado ao extremo. Ela está procurando conviver com isso. O desapego de Tallulah aqui é mostrado ao contrário, já que Margo tem um grande apego a vida que construiu e a imagem que mostra a sociedade, as duas são como se fossem opostos uma da outra, mas que acabam se completando pelas carências que tem.

Os personagens e as histórias de vida deles são nos apresentados aos pouquinhos, o que vai aguçando a sua curiosidade sobre como eles se tornaram o que são e como vão saber lidar com tudo.

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O grande drama da história acontece quando Tallulah está pegando restos de comida num hotel e uma das hóspedes a vê ali e acha que ela é uma das camareiras, no que pede para a menina cuidar de sua bebê para ela ir a um encontro, nós sabemos o quão propícia essa situação é ao desastre, já que Tallulah é apenas uma garota e não tem experiência alguma com crianças, além de que no nosso mundo é muito perigoso entregarmos uma criança a um estranho. E aqui podemos ver que Carolyn (Tammy Blanchard) não está nada confortável em ser mãe e com a vida que vem levando, ela bebe muito, toma remédios, está com a auto-estima em frangalhos, e vê-se claramente que ela está à beira do colapso, o que faz com que a protagonista escolha levar a criança junto quando ela sai do hotel, o que com certeza é caracterizado como crime de rapto, mas simplesmente paramos de julgar aqui. Só queremos ficar quietinhos e vermos como a história vai acontecer.

Aos poucos passamos a entender os lados de todas as três personagens, Tallulah que foi abandonada pela mãe quando era criança, viu ali naquele bebê uma forma de se redimir por sua própria mãe, Carolyn, que nunca se viu no papel de mãe, passa a procurar a filha, mesmo tendo dúvidas ainda, mas tendo certeza de que o lugar da filha é ao seu lado. E Margo, que é posta no enredo, já que Lu volta para o apartamento dizendo que Maggie, a bebê, é neta dela, vê sua vida tomar um novo ar de esperança, e com isso vai se libertando aos poucos de sua vida passada. Margo precisa ter uma família, precisa se apegar a vida de outras pessoas para sentir que está viva, e isso faz dela até um tanto quanto ingênua, ao não questionar veemente as escolhas e ações de Tallulah.

O filme nos mostra claramente como situações de abandono podem moldar nosso caráter a partir daquele momento, são todos personagens quebrados de alguma forma, que tentam viver, mas sem saber como fazer para que isso aconteça. Cada uma delas tem um sentimento de ser algo para alguém e ter de cuidar de alguém, que faz com que muitas vezes elas tomem decisões questionáveis, mas que dentro delas está correto. Elas pensam com o coração, mesmo que seja a favor delas mesmas, como no caso de Carolyn.

E ao final do filme entendemos o slogan “A vida pode ser uma verdadeira mãe”, inclusive, muitas vezes, nos ensina muito mais do que nossa família ou do que uma escola, ela nos ensina do jeito mais duro, mas são as lições que lembramos para sempre.


Vivi Becker

30 anos, leonina com ascendente em câncer, aspirante a escritora das coisas, bruxa nas horas vagas, amante de café, gatos, vinho, livros, filmes, séries, moda, tarôs e misticismos..
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