voar é preciso

Se há leveza, eu voo. Se a vida chama, eu vou.

Cláudia Alves

Amante de voos e sorrisos. Se há leveza, eu voo. Se a vida chama, eu vou. Afinal, voar é preciso. Faço de tudo uma poesia, sem perder a prosa. Com silêncio misterioso e olhar observador

O clique antes da morte: uma vida de contradições

Quarenta e um anos de contradições. Atrevo-me assim a resumir a vida de Capa. Incontáveis foram os cliques que ele fez antes, durante e depois da morte de milhares de soldados. Mas, quem fez o clique antes de sua morte?


Fotografia de Robert Capa

Quantas vezes já tivemos contato com a imagem de uma garota nua chorando e correndo, retrato de uma cena da Primeira Guerra da Indochina? Em alguma dessas vezes nos perguntamos quem registrou o momento?

“Não é preciso pousar a câmera. As imagens estão lá, basta capturálas. A verdade é a melhor imagem, a melhor propaganda”.

A afirmação acima é de um dos mais conceituados fotógrafos de guerra da história. E, também, o autor da foto descrita no início deste texto. Falo de Robert Capa.

Capa era, na verdade, Endre Erno Friedmann. Um judeu de Budapeste, da Hungria. Ironicamente, para fugir da perseguição dos judeus na Segunda Guerra Mundial, nasceu a lenda do fotojornalismo de guerra Robert Capa. O pseudônimo foi inventado com a ajuda de sua grande paixão, a, também, judia e fotógrafa, Gerda Taro. Enquanto muitos fugiam e camuflavam as guerras, a exemplo da grande mídia impressa, Robert Capa ia ao encontro delas e as mostrava. O olhar do fotojornalista registrou os mais importantes conflitos da primeira metade do século XX. Entre eles: a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Sino-Japonesa, a Segunda Guerra Mundial na Europa e no Norte da África, a Guerra árabe-israelense de 1948 e a Primeira Guerra da Indochina.

Enquanto soldados tiravam as vidas uns dos outros, Capa as registrava para a eternidade. Em suas mãos, sempre o instrumento que deu vida ao seu nome e às suas fotografias: a máquina fotográfica.

Ao contrário do que muitos faziam – fugir e se proteger dos conflitos –, Robert Capa chegava ainda mais perto das guerras. Quanto mais próximo delas, mais vida suas fotografias tinham. Vida no sentido de realidade. As imagens das fotografias de Capa se traduzem em grito por libertação. Quando não, elas se traduzem em adeus: em morte.

Desistência e persistência, armadilhas e estratégias, abandono e socorro, medo e coragem são alguns dos sentimentos eternizados nas fotografias preto e branco de Capa.

Contudo, essas cores primárias não tinham espaço na vida noturna e boemia do fotógrafo. Cheias de cores, as noites de Capa eram arrodeadas por mulheres, bebidas, cigarros e amigos artistas.

De Ernest Hemingway a Picasso. De John Huston a Gene Kelly. Ava Gardner a Ingrid Bergman. Capa estava cercado por literatura, pintura, cinema, dança e guerra.

Robert Capa era reconhecido por colocar sua própria vida em risco. A melhor foto era aquela tirada no ângulo e momento mais próximos dos acontecimentos. A beleza de suas fotografias está na própria crueza do momento fotografado.

Crueza que levou a vida de sua grande paixão, a fotógrafa Gerda Taro. Cobrindo a Guerra Civil Espanhola, a jovem, com 26 anos de idade, teve seu corpo esmagado acidentalmente por um tanque.

Diante de vidas em mortes, Capa não se deteriorou pelos horrores das guerras. Mas, sim, lapidou-se. Presenteando a eternidade com a realidade de conflitos históricos com suas belíssimas fotografias.

Uma de suas imagens que ganhou maior destaque é a fotografia do soldado caindo no chão. Certamente, o momento de sua morte. “A morte do soldado miliciano” registra um soldado miliciano republicano a cair no momento em que é alvejado durante a Guerra Civil Espanhola.

Fotografia de Robert Capa

O clique que não aconteceu

No dia 25 de maio de 1954, o último momento de vida de um dos presentes na Primeira Guerra da Indochina não foi registrado. Ao pisar uma mina terrestre, Robert Capa perdeu a sua vida, aos 41 anos de idade. O seu corpo, com as pernas dilaceradas, mantinha preso entre as mãos uma das duas máquinas fotográficas que levava consigo.

Quarenta e um anos de contradições. Atrevo-me assim a resumir a vida de Robert Capa. Incontáveis foram os cliques que o fotógrafo fez antes, durante e depois da morte de milhares de soldados. Mas, quem fez o clique antes de sua morte?

Em uma história trágica de amor, Capa conheceu sua grande paixão na guerra e na guerra a perdeu. Em uma história deslumbrante de vida, Capa nasceu na guerra e na guerra morreu.

Endre Erno Friedmann, assim como milhares de judeus, poderia ter vivido um pouco mais que 41 anos, fugindo das guerras. Mas, não. Friedmann não viveu muito para dar vida a Robert Capa.

Robert Capa poucos anos viveu, mas muito viveu. E, principalmente, deu vida, ou melhor, eternizou vidas.


Cláudia Alves

Amante de voos e sorrisos. Se há leveza, eu voo. Se a vida chama, eu vou. Afinal, voar é preciso. Faço de tudo uma poesia, sem perder a prosa. Com silêncio misterioso e olhar observador.
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