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Arte, Filosofia e Literatura

Isaac Arrais

o nascimento do amor-paixão

O nascimento do amor é um mistérios que poucos chegaram tão perto de explicar quanto o escritor francês Stendhal.


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Sem perceber as nuances do coração, nós acordamos em um certo dia e nos damos conta de estar completamente apaixonado por alguém. Isso acontece porque nós ignoramos os pequenos movimentos do espírito que nos levam a este estado. Com o objetivo de trazer a luz o processo de enamoramento que se passar à margem da nossa consciência, o escritor francês Stendhal publica em 1820 o livro chamado “do Amor”. Com base nesta obra, falaremos a seguir de como o amor nasce, se desenvolve e morre.

Mas antes de narrar a gênesis do amor, precisamos definir claramente o que ele é. Nas palavras de Stendhal, “amar é ter prazer em ver, tocar, sentir através de todos os sentidos, e tão perto quanto possível, um objeto amável e que nos ama”. Uma fórmula simples, que poderia ser resumida na frase do poeta Vinícius de Morais, quando diz que “amar é querer perto se longe, e mais perto se perto”.

Não podemos, contudo, confundir o amor com a paixão. A paixão, como indica a sua etimologia, refere-se a um estado passivo, como sofrer, aguentar ou padecer. Estar apaixonado é ser passivo em relação a algum sentimento que age sobre nós ou até mesmo contra nós. Existe paixão no ódio, na vingança, na raiva, no ciúme... em resumo, a paixão é como uma doença que vem e vai embora sem que tenhamos nenhum controle sobre ela, e se nosso estado saudável é o estado de razão, o estado doentio é o apaixonado.

Nesses termos, quando o amor – que é esse desejo pela presença do seu objeto ausente ou regozijo quando ele está presente – se associa com a paixão – essa força arrebatadora que nos domina –, o resultado é o que os franceses chamavam de “a bela febre”. Eles acreditavam que, apesar de todos os riscos de destruição que pode sobrevir ao portador dessa doença, o amor-paixão também é capaz de nos elevar “acima da felicidade dos reis, pelo simples prazer de passear com a pessoa amada”. O apaixonado é aquele sujeito que existe nos extremos da alegria e da tristeza, o que explica o seu heroísmo e sua tragédia. Quem não estiver disposto a enfrentar este estado de apaixonamento deve, como aconselha Kalil Gibran, retirar-se em para vida “sem estações, onde rirá, mas todo o seu riso, e onde chorará, mas não todas as suas lágrimas”.

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Os sete tempos do amor

Na nossa ignorância, pensamos que o amor-paixão é algo que nos acontece de maneira espontânea e ilógica. Contudo, Stendhal acreditava que temos essa impressão porque o processo de enamoramento se passa fora da nossa consciência, e por isso não percebemos o processo que trilhamos até nos apaixonar por alguém. Atento a esse fenômeno psíquico, ele conclui que o coração possui critérios, dos quais ele identifica sete. A partir de então ele cria sua teoria sobre o nascimento do amor, que se divide em sete etapas progressivas. Usando uma metáfora do caminho, ele fala dos sete passos que damos para nos apaixonar por alguém, sendo o marco zero a indiferença que nutrimos em relação ao outro, e o último ponto a felicidade plena de amar e ser amado.

1. Admiração

O primeiro passo que damos para nos apaixonar por alguém é o da admiração. Há quem admire mais aquilo que vê (como atributos físicos), enquanto outros preferem qualidades simbólicas (como personalidade, conduta moral ou status social), mas seja como for, a admiração é o primeiro movimento que nos arrebata do estado de indiferença em relação a alguém e cria um viés de interesse.

2. Atração

Mas a admiração não é o suficiente. É preciso também que o outro nos seja aprazível esteticamente, isto é, belo. O problema, contudo, é que as coisas não têm beleza por si mesmas: as coisas têm cor, forma, dimensão, mas não tem beleza. O que há, na verdade, é o juízo de beleza. Ou como fala Fernando Pessoa: “beleza é um nome que a gente dá para as coisas em troca do agrado que elas nos dão”. E para Stendhal, julgamos algo como sendo belo quando o enxergamos como uma promessa de felicidade. Se, por exemplo, acordamos em um dia ensolarado logo imaginamos: “hoje poderei sair, tomar sorvete, ir ao cinema, etc.” o que nos faz concluir: “o dia está belo”. Opostamente, quando acordamos em um dia nublado e chuvoso, logo pensamos: “hoje terei um dia entediante trancado em casa, etc. O dia está feio”. Ou seja, dizemos que algo é bonito na medida em que acreditamos que ele poderá nos trazer prazer e alegria. E assim também julgamos as pessoas: se alguém que se oferece a nossa vista for para nós uma promessa de felicidade, a julgaremos como sendo bela.

Mas por que concluímos que certas qualidades podem nos fazer felizes e outras não? – Ou em outras palavras, por que prefiro mulheres com cabelo castanho ao cabelo ruivo? A resposta de Stendhal é: a vivência. Essa predileção pelo castanho indica que tive tantas experiências boas na presença de alguém com essa tonalidade de cabelo, que acabei incorporando inconscientemente essa característica como uma promessa de vida feliz. Ou seja, a minha vivência indica que essas pessoas são mais competentes em me provocar alegria, e em retribuição a elas, não tenho outra opção a não ser lhes presentear com um olhar de beleza.

3. Esperança

Mas a admiração e a atração não são o suficiente para o nascimento do amor. Antes, é preciso que haja uma esperança de que os sentimentos venham a ser correspondidos. Um aperto de mãos, um olhar demorado ou um beijo pode ser o suficiente para fazer a esperança nascer. E uma vez nascida, ela irá patrocinar o florescimento do amor.

4. O amor nasce

Uma vez que o amante tenha admirado as qualidades, contemplado a beleza e constatado a possibilidade de correspondência, o amor começa a nascer. Repetindo Stendhal: amar “é um prazer em ver, sentir e tocar através de todos os sentidos, o quanto mais próximo possível o ser amado”. Podemos resumir o sentimento amoroso como desejo por um objeto ausente, ou alegria quando ele está presente.

5. Cristalização

Após o nascimento do amor tem início o arrebatamento da paixão provocado por um fenômeno chamado de cristalização. Imagina-se que nas profundezas de uma mina de sal é lançado um galho desfolhado pelo inverno. Dois ou três meses depois ele é retirado, coberto por cristais brilhantes. Desta feita, já não é mais possível reconhecer o galho primitivo, pois ele está coberto pelos sais que fazem dele uma joia quase perfeita.

O mesmo acontece no coração do apaixonado: ele lança o objeto do seu amor em uma mina de sal (que são os seus devaneios), e uma vez estando lá, inicia um processo de ornamentação que consiste em atribuir infinitas qualidades a pessoa amada. Em um processo análogo ao da cristalização, quando o enamorado volta para a realidade já não consegue mais reconhecer a pessoa tal como via antes, pois exagera sempre a seu favor. Se, por exemplo, o amado apresenta uma qualidade, como uma inteligência sutilmente acima do normal, ele se tornará o mais inteligente entre todos; opostamente, se a pessoa for profundamente ignorante, a paixão irá lhe entorpecer deste defeito, tornando a ignorância até mesmo uma virtude.

O fenômeno da cristalização prova que, em certa medida, não é a realidade que define o amor, mas é o amor que define a própria realidade. O amor só é capaz de se dirigir aquilo que é belo, bom e sábio, mas se não houverem essas qualidades, o próprio amor as cria. Ou seja, não amo minha namorada por ela ser bela, mas ela é bela justamente porque eu a amo; assim como também não amo meus amigos por sua sabedoria, mas eu os amo, e esse filtro faz com que suas palavras me soem como verdadeiras; e não é a virtude dos meus familiares que faz com que eu lhes dedique o meu amor, mas vejo neles bondade por ama-los.

6. Ausência

Mas como a cristalização é um fenômeno transitório – pois o êxtase dos primeiros dias é suprimido pela banalidade do cotidiano –, Stendhal se pergunta sobre o que pode assegurar a constante renovação da cristalização. Ele conclui que, se o amor for só presença (isto é, alegria), ele diminui; ao passo que se for só ausência (desejo), ele acaba. Portanto, é preciso mesclar a ausência – que produz o medo da perda – e a presença – que faz renovar as esperanças. Em meio a essa oscilação de afetos, entre a presença e a ausência, o medo e a esperança, que surge uma segunda cristalização ainda mais forte do que a primeira.

7. Segunda Cristalização

Na segunda cristalização o apaixona erra três vezes: Em primeiro lugar ele se pergunta: “Ela me ama?”, para em seguida responder a si mesmo: “Sim, ela me ama!”. Mas a força dessa convicção não dura mais que um minuto, e em seguida a dúvida renasce ainda maior: “Mas será…? Sim!“. E então ele entra neste circulo vicioso do qual não há escapatória.

Como resposta a esse medo, ele erra pela segunda vez ao exigir favores cada vez maiores da sua amante. O que antes bastava um sorriso sincero para leva-lo ao cúmulo da felicidade de se sentir amado, agora já não o satisfaz: ele precisa submeter seu amor a provas, pois acredita erroneamente que isso irá aplacar ânsia insaciável pelo amor do outro.

Finalmente, ele erra pela terceira vez quando pensa: “ela me concede prazeres que ninguém mais no mundo poderia me dar”. Ele tenta se lançar aos prazeres do mundo, mas encontra-os desertificados, e sua única opção é dedicar-se aquela relação que se tornou a âncora da sua existência. É nessas circunstâncias que ele irá experimentar os maiores prazeres e sofrimentos possíveis, pois se de um lado sente que toca os céus cada vez que se imagina amado, por outro por outro teme o abismo que se abre abaixo dos seus pés a cada vez que a dúvida ameaça seu amor.

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Próximo Artigo

Este artigo faz parte da série “do Amor”, e no próximo texto iremos tratar do declínio do amor-paixão.


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