vozes do cotidiano

Exemplo é motivação. Motivação vira sonho. Sonho vira realidade.

Daniela Origuela

Jornalista e geminiana. Uma metamorfose ambulante que não tem uma velha opinião formada sobre tudo.

Meu filho querido: a dor de uma saudade

A morte é a única certeza da vida. No entanto, quando ela não segue o cronograma natural - nascer, crescer e morrer - traz questionamentos e reflexões dolorosas, especialmente quando o ente que parte possui uma ligação umbilical.


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Joana revê o álbum de fotos e uma lágrima cai. A imagem daquela criança correndo no quintal vem à tona. O retrato que segura nas mãos eterniza um daqueles domingos em que a família se reunia para almoçar na mesa farta. A cada fotografia, as lembranças se acentuam. Na última imagem, a voz embargada denuncia a saudade que lhe acompanha.

Uma vez por mês a mulher sexagenária tem um compromisso: ir ao cemitério. O rito é o mesmo: flores, velas e uma polida na lápide que a faz chorar e perguntar várias vezes "por quê?".

Abril de 2000. Ele tinha acabado de completar 19 anos e os estudos regulares. Tentava uma vaga no curso de Engenharia. Trabalhava e o salário modesto o tornara independente. Vivia a intensidade da juventude, onde sair com os amigos, curtir a garota e tocar o violão era o maior barato. Bom filho, travesso no auge de seus oito-nove-dez anos, o menino tinha se tornado homem e orgulho para a mãe.

Numa noite, dessas estreladas e de céu limpo, o rapaz deu um beijo na testa da mãe e disse "volto já, coroa". Seria mais um daqueles passeios com os colegas e a namorada, não fosse a imprudência alheia - ou o acaso do destino. Barulho de batida, a porta do carro aberta, o corpo estirado no chão. Dezenove anos passaram instantaneamente em sua mente e o adeus ficou entalado na garganta.

Joana não acreditou quando soube. Quis seguir viagem com o filho querido. O que seria dela agora sem um pedaço seu. As lembranças vieram uma a uma - a gravidez, o nascimento, os primeiros passos, a escola, a festinha do Dia das Mães, a primeira comunhão, os puxões de orelha da adolescência e o último beijo na testa. Sentiu-se impotente, de braços atados e com vontade de dormir junto ao rapaz. Ver o túmulo fechar foi a maior dor que sentiu em toda a sua vida, mais do que os três partos normais e as pedras nos rins.

Por muitos anos guardou as roupas do filho. Era como eternizá-lo. Depois resolveu dar os pertences. Buscou nos livros uma explicação para tudo o que havia acontecido. A cada mês que passava a dor era amenizada pela saudade. O choro nunca conseguiu segurar.

Dia desses ele visitou Joana em sonho. Estavam os dois em um lugar muito bonito. O rosto do filho querido continuava lindo, assim como o sorriso. O rapaz pegou em suas mãos e lhe deu uma certeza: "Um dia estaremos todos juntos novamente. Eu te amo, coroa". Acordou com o perfume de flores no quarto e a sensação de que a perda foi passageira e de que tudo tem o seu tempo.


Daniela Origuela

Jornalista e geminiana. Uma metamorfose ambulante que não tem uma velha opinião formada sobre tudo. .
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