vozes do cotidiano

Exemplo é motivação. Motivação vira sonho. Sonho vira realidade.

Daniela Origuela

Jornalista e geminiana. Uma metamorfose ambulante que não tem uma velha opinião formada sobre tudo.

O que é mesmo o Natal?

O Natal se aproxima e, com ele, a certeza de que me tornei um Grinch (aquela criatura verde e mesquinha do filme, que odeia o espírito natalino). Um adulto que cumpre o ritual de uma data do calendário. Que compra presente, come peru, bebe cerveja, troca abraços, dorme e, no outro dia, come o que sobrou da noite em que todos vestiram roupas novas para comemorar (o quê mesmo?)


O observei por menos de um minuto. Estava sem camisa e descalço. Bermuda suja, o rosto pintado de branco e um gorro de Papai Noel. Parado no semáforo de uma via movimentada, o garoto pedia alguns trocados aos motoristas em troca de gracejos. Um pouco antes de vê-lo, eu havia me encantado com um enfeite lindo - e grande - de Natal disposto na vitrine de uma loja. O valor da peça era maior que o salário que ganho em um mês de trabalho.

Já faz um tempo que tenho buscado respostas para o significado do Natal. Não que eu não saiba, mas aquela data que eu esperava com tanto ânimo quando criança já não me traz tanta empolgação. Tornei-me um Grinch (aquela criatura verde e mesquinha do filme que odeia o espírito natalino). Um adulto que cumpre o ritual de uma data do calendário. Que compra presente, come peru, bebe, troca abraços, dorme e, no outro, dia come o que sobrou da noite em que todos vestiram roupas novas para comemorar (o que mesmo?).

Este ano parece que o espírito Grinch está mais aguçado. Não vejo luzes - talvez a conta de energia elétrica tenha prejudicado o uso do pisca-pisca. Não vejo cores - no vai e vem de carros, o cinza das ruas e as fachadas das casas continuam as mesmas. Não ouço a mais a minha tia falar que vai à Missa do Galo. Não ouço sinos e músicas natalinas - em outras épocas Simone e seu "Então é Natal" já estaria tocando repetidas vezes nas portas das lojas. Vejo apenas prateleiras repletas de panetone, árvores de natal encalhadas, selfies na decoração dos shoppings, a alta da uva passa e do bacalhau, o povo reclamando que a ceia está cara, o carnaval dando as caras...

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O Papa disse que este ano não temos o que comemorar no Natal. Mas o que é mesmo o Natal? Será ele o nascimento de Cristo? O Papai Noel da barba postiça a distribuir presentes nas comunidades carentes? O abraço que não dei o ano todo? O banquete que quero preparar, mas tô com a grana curta? A rabanada que só a avó sabe fazer? O presente ou a lembrancinha? A reflexão sobre o que eu fui, o que sou e o que deveria ser? O mundo virado do avesso? Eu parada na vitrine a olhar os enfeites como se fosse uma criança? O menino de short sujo tentando despertar o espírito natalino em troca de moedas no semáforo? Não sei.


Daniela Origuela

Jornalista e geminiana. Uma metamorfose ambulante que não tem uma velha opinião formada sobre tudo. .
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