Susana Rosmaninho

Tipologia e participação na Arquitectura de Álvaro Siza

Recentemente com a crise dos refugiados em todo o mundo e a surpreendentemente rápida urbanização dos países em desenvolvimento tornou o défice de habitação acessível numa crise de proporções incontroláveis. E a necessidade urgente de soluções – tanto sociais e arquitectónicas – fez das experiências pioneiras de Siza no projecto colectivo mais relevante do que nunca.


Bouça_Siza.jpg Álvaro Siza, Conjunto habitacional da Bouça, 1975-77, Porto, Portugal. Fotografia: António Choupina

Tendo já ultrapassado os oitenta anos de idade, o arquitecto português Álvaro Siza é possivelmente o único mestre que, depois de ter realizado cerca de quatrocentas obras numa variada gama de escalas e programas, permanece tão firmemente comprometido como sempre com o projecto socialista inacabado que galvanizou a vanguarda europeia ao longo do período entre guerras. Siza começou como arquitecto de habitação, e enquanto a primeira década da sua carreira foi em grande parte dedicada ao desenho de casas particulares, cedo fez uma incursão pela tipologia essencialmente modernista de habitação social durante o intenso optimismo da chamada Primavera portuguesa de Abril de 1974 e o colapso total de quarenta anos de regime totalitário de António Salazar, o Estado Novo. Os projectos de Siza foram construídos no Porto sob os auspícios do SAAL, o Serviço Ambulatório de Apoio Local, uma organização criada no rescaldo da revolução de 1974, com o apoio do governo socialista interino. O seu objectivo era melhorar as condições de vida nas cidades portuguesas e sanar o défice habitacional do país através de nada menos que uma reinvenção radical do papel social da arquitectura. Na sequência do modelo experimental do SAAL, os arquitectos iriam conceber projectos habitacionais em diálogo com as comunidades locais.

Para Siza, os primeiros frutos deste programa participativo foram os conjuntos habitacionais de São Victor e Bouça, estruturas residenciais notáveis de cércea baixa projectadas por Siza e construídas entre 1974 e 1977. O complexo de habitação geminada de São Victor é um conjunto de dois andares, construído no meio de habitações geminadas abandonadas que tinham sido parcialmente demolidas. Siza parece ter imaginado o desenvolvimento como se fosse uma recuperação de uma antiga ruína - estabelecendo a sua abordagem habitual de leitura de um lugar como um palimpsesto, incorporando no seu projecto não só a textura do solo, mas a sua história e cultura de outrora.

O segundo desenvolvimento do SAAL, o conjunto habitacional da Bouça, foi construído num terreno trapezoidal livre de edifícios existentes. Este é fechado no seu lado mais longo por uma parede de betão de quatro andares, que serve como barreira acústica necessária para mediar o ruído da linha de metro adjacente. O esquema é composto por quatro blocos paralelos de quatro andares feitos de diferentes combinações de unidades duplex. Em alguns casos, o duplex superior foi ligado ao solo por escadas externas autoportantes, aumentando dramaticamente para fora no pátio de entrada entre os blocos. Noutros casos, os duplexes inferiores são acedidos através de uma galeria horizontal, que está em balanço na frente do bloco. Dentro de cada apartamento, as escadas internas foram organizadas de modo a que os moradores pudessem escolher quais espaços seriam mais convenientes para viver e quais para dormir; as alternativas surgiram do intercâmbio permanente entre o arquitecto e os futuros moradores. Os blocos são de comprimento variável, devido à forma do terreno, e enquanto numa das extremidades culminam na parede acústica, na outra extremidade terminam num pequeno edifício de esquina, que seria dedicado a instalações comuns, como uma lavandaria, uma biblioteca, ou uma loja de conveniência. Estas instalações propostas testemunham o compromisso de Siza para o alcance social do projecto como um todo; o facto de nunca terem sido realizadas parece, em retrospectiva, indicativa dos limites do sistema SAAL.

Embora o projecto habitacional seguinte de Siza tenha prosseguido sem o apoio do SAAL (entretanto dissolvido), continuou a integrar certos aspectos do processo participativo. Imediatamente após a Bouça, Siza começou a trabalhar num conjunto de habitações de cércea baixa e alta densidade para um bairro conhecido como a Quinta da Malagueira, situado fora do centro da cidade alentejana de Évora. Siza foi encarregado de projectar e construir 1200 unidades residenciais dentro de um território já ocupado por assentamentos irregulares e habitação social de cércea média datada da década de 1960. Tal como na Bouça, teve como modelo para a aglomeração e organização do projecto a habitação social de entre guerras da República de Weimar, embora a unidade individual que projectou seja muito diferente. Aqui, optou por uma habitação de dois andares, com uma planta em forma de L que flanqueia os lados contíguos de um pátio quadrado fechado para a rua. Consistentemente desenvolvido pelo arquitecto ao longo de um período de vinte anos, sob o patrocínio da câmara municipal, o complexo habitacional da Malagueira é, com efeito, uma reformulação das casas caiadas de branco de cércea baixa que tem sido a forma nativa de algumas das cidades do Mediterrâneo. Na verdade, pode-se argumentar que a única coisa que distingue o projecto de Siza do tecido vernacular é a colocação rítmica e proporção das aberturas de portas e janelas pelo todo, um formato que parece ter sido retirado da abstracção absoluta favorecida por Adolf Loos, que foi talvez mais didacticamente articulada na sua casa Alexander Moissi, projectada para o Lido de Veneza, em 1923.

Um dos dispositivos mais incomuns que Siza aplicou no seu esquema é uma conduta de serviço elevada, apoiada sobre pilares de betão realizada em blocos de cimento sem reboco, o que produziu um pseudo-viaduto que serpenteia através dos episódicos terraços das habitações da Malagueira como uma relíquia de outra época. Justificada por razões de aumentar a acessibilidade de gás, electricidade e outras utilidades para fins de manutenção e reparação, esta forma colectiva, que liga as unidades díspares tanto literalmente como composicionalmente, pode ser visto como uma compensação surreal para a lamentável ausência de comodidades comuns. Apesar de várias limitações, a Malagueira tem resistido ao teste do tempo - particularmente no que diz respeito à sua capacidade de absorver estacionamento na rua, algo que não foi considerado necessário no início do projecto - sugerindo que a concepção de espaços explicitamente designados de comuns não é o único meio de produzir uma arquitectura colectiva.

O trabalho de Siza com as brigadas do SAAL chamou a atenção dos órgãos públicos de Berlim, que o convidaram para participar em dois concursos sucessivos, primeiro para a piscina Görlitzer Bad em 1979 e, em seguida, em 1980, para o chamado bloco 121 no então dilapidado bairro de Kreuzberg. O impulso básico de Siza no que diz respeito a este último projecto foi o de reconstruir o tecido urbano, restaurando o canto destruído do bloco original com um edifício de esquina de sete andares. Mais uma vez lidou com este bloco de preenchimento como uma espécie de grau zero Loosiano; isto é, como uma massa de construção simples, despojada de decoração e perfurada em intervalos regulares por aberturas de janelas rectangulares. Além da curva dilatada da forma do bloco em planta e corte, há pouco que chame a atenção para este edifício do que o grafiti anónimo que famosamente apareceu dum dia para o outro na sua fachada durante a construção: a legenda irónica BONJOUR TRISTESSE (olá tristeza). Adoptada por Siza, que não quis que fosse removida, a alcunha tornou-se o nome indelével do projecto. Enquanto as próprias unidades de habitação, determinadas pelas rubricas implacáveis de desenvolvimento especulativo, são, não obstante os esforços de Siza, desprovidas de diferença e estreitas ao ponto de estar abaixo do padrão, a estrutura mantém uma forte ligação tipológica à cidade ao nível da sua massa total, pintada no amarelo ocre clássico de Berlim.

A tipologia de bloco genérico também seria o seu ponto de partida, quando o vereador de Haia, Adri Duivesteijn, lhe pediu, em 1984, para virar a sua atenção para a reconstrução da cidade Schilderswijk Ward. Para além da forma de bloco, o que Schilderswijk tinha em comum com Kreuzberg era a presença de uma grande população migrante, embora em Schilderswijk fossem na sua maioria muçulmanos Norte-africanos. Neste caso, portanto, a religião teve um impacto crucial na arquitectura, na medida em que a fé dos habitantes exigiu que o âmbito doméstico fosse subdividido num domínio masculino público e um espaço feminino privado. A solução engenhosa de Siza foi usar uma parede deslizante para separar a primeira da segunda sem comprometer necessariamente o uso futuro das unidades por ocupantes não-muçulmanos. Tal como os planos adaptáveis dos apartamentos da Bouça, essas divisórias móveis representam uma forma de realização concreta do projecto de arquitectura entendido como um processo social, e mostram a habilidade com que Siza equilibrou a profunda ligação ao lugar e contexto fornecido pela especificidade vernacular com a flexibilidade adquirida do desenvolvimento de mais tipos de construção abstractos.

Na verdade, Siza foi capaz de implementar esta solução maleável e, ao mesmo tempo conceber o bloco como uma variação da tradição residencial holandesa. Para o efeito, este pedaço único de renovação urbana consiste em dois edifícios quarteirão parciais de quatro andares, revestidos em grande parte a alvenaria vermelha e janelas quadradas com caixilhos de madeira, servidos por escadas que se abrem directamente para a rua. Acedendo aos apartamentos ao mesmo tempo, quer directamente a partir da rua ou chegando de escada ao segundo andar, entra-se para um corredor interno que serve a cozinha e sala de estar principal. Duas escadas laterais de largura simples, juntamente com duas de lanço recto, foram engenhosamente concebidas para servir os apartamentos adicionais acima no terceiro e quarto andar.

O tratamento meticulosamente detalhado e sintáctico da superfície destes edifícios quarteirão é sensivelmente contextual, especialmente no uso de tijolos vermelho-escuro e vermelho-claro para diferenciar entre a frente de rua do rés-do-chão, mais exposta ao desgaste, e os três andares superiores. Tijolos quase brancos, também, foram implantados no revestimento dum volume de dois andares de altura onde os edifícios quarteirão convergem numa intersecção em ângulo entre duas ruas e onde outro bloco se transforma numa ampla frente, tal como o passeio dá a volta através de um generoso arco - como se fosse para compensar, no entanto, paradoxalmente, pelas ligações que teriam sido fornecidas pelos edifícios de esquina que Siza propôs inicialmente para abrigar instalações comuns. Este revestimento de tijolo branco também é usado para cobrir as unidades de habitação autónomas previstas para o jardineiro e o assistente de garagem, e no edifício principal, o volume também é continuado em tijolo vermelho-escuro "rústico" por uma única fila de tijolo, tal como uma única fila de tijolo vermelho penetra o campo de tijolos brancos.

Siza propôs extensos empreendimentos residenciais urbanos de cércea média para Milão e Nápoles em 1986, mas então a política do neoliberalismo foi ganhando força em todo o mundo; a grande experiência do pós-guerra no socialismo democrático tinha acabado. Recentemente, no entanto, a crise dos refugiados em todo o mundo e a surpreendentemente rápida urbanização dos países em desenvolvimento tornou, mais uma vez, o défice de habitação acessível numa crise de proporções incontroláveis. E a necessidade urgente de soluções – tanto sociais e arquitectónicas – fez das experiências pioneiras de Siza no projecto colectivo mais relevante do que nunca.


version 3/s/arquitetura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Susana Rosmaninho
Site Meter