xiuxiueig

Sussurros do desassossego.

Karina Angolini

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

O que restou depois do depois

"Mas veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso me alegra, montão". (Guimarães Rosa)


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Quando vi seus olhos no aeroporto aquela tarde, jamais imaginei que seria a última vez. E talvez seja melhor assim, sofro uma dor mais quieta, mais guardada. Precisamos saber sofrer, entende? Eu tô tentando. Minha vida está uma montanha russa - oscilo entre felicidade e tristeza, entre cura e dor. O fato é que somos seres em processo de formação e não adianta dar um passo maior que a perna: nossa energia precisa esta concentrada no aqui e no agora, caso contrário não vivemos, apenas existimos. Quero que você saiba que se sua cabeça estivesse entre minhas mãos agora, eu te olharia e beijaria os olhos (daquele jeito que só nós fazíamos); eu iria olhar esses olhos castanhos e mergulhar meu corpo inteiro - iria me afogar. Eu iria acariciar suas costas e seus cabelos como se fosse a última vez. Mas eu não tive uma última vez; e o pior é saber que jamais terei.

Não tô afim de morrer sufocada com o que eu nunca disse, e eu realmente não tento esconder minhas dores: eu sei que logo elas serão cicatrizes, as quais sempre terei orgulho de exibir (afinal, sem elas eu não seria metade de quem sou). Meu coração já não arde mais e meus olhos já não anunciam umidade ao som daquela nossa música. Eu tô aprendendo a viver sem você aqui. Já sou grandinha o suficiente para saber que jogos são distrações infantis, e eu deixei de fazê-los há tempos. O problema é que a dor que eu sinto é aquela dor conformada, então nunca sei como estou de fato - e muitos confundem isso com jogos, como se estar bem fosse uma máscara. Porém, não sei explicar muito bem essa dor - ora está camuflada com conformação, ora com desilusão. A vida muda nossas perspectivas, mas nós temos que saber desfocar o olhar, mas até agora eu não queria (e por isso não saberia) desfocar o meu de ti. "Meu erro foi crer que estar a teu lado bastaria"; sim, deus, era tudo que eu queria. Queria acreditar que era meu homem, que era minha rocha estável, meu guardião.

O que mais aprendi com você é que não existe amor da vida: existem amores da vida que nos são necessários e preciosos em determinada etapa. Olho pra trás e vejo o que cada pessoa deixou comigo, cada aprendizado, cada dor, cada gargalhada. Agora você é mais um nessa lista, e virão próximos. Eu não quero ser ingênua, e acho que esse papo de amor eterno é ingenuidade - mas eu queria acreditar nisso, juro. A utopia é gostosa, né? Romances são apetitosos. Mas nós temos o impulso de controlar e prender e sufocar e exigir. Perca na certa. Como você jura amor eterno a alguém se somos incapazes de prever o tempo? Se fosse possível apertar um botão e escolher amar fulano pra sempre, poderíamos controlar, mas entendo que não podemos. Você, felizmente, destruiu meu conto de fadas, meu ideal de amor e de relacionamentos; você me fez uma mulher com os pés no chão; me fez saber sofrer e apreciar que é efêmera. Mas o mérito não é nosso: é dos pequenos milagres diários que acontecem mas que não apreciamos; é o olhar sincero daquela criança que fez uma cagadinha e não sabe disfarçar; é o sorriso de ter superado uma doença. Nós somos instrumentos da vida, compomos melodias o tempo inteiro, e mesmo desafinados, sempre achamos o tom certo. Você é meu tom certo, assim como todos que passaram por minha vida e todos que vão passar. Não existe apenas uma nota, por que seria apenas um amor? Sei que isso pode ser um pouco assustador, mas acredite em mim: não acredite em tudo que te falaram sobre o amor. Ame, mas ame sem prender, sem cobrar, sem idealizar. É algo tão simples que, como de costume, complicamos.

Pode ser que tudo isso seja verdade: não existe aquele amor pra vida toda; pode ser que eu esteja tremendamente enganada: ainda está por vir o tal amor; pode ser que cada um tenha o que realmente deseje; pode ser que você seja meu primeiro e último amor. Quem vai saber? O gostoso da vida é esse mistério, é esse ar de borboletas no estômago de quem nunca sabe o que está por vir. E depois? E depois do depois? Cara, não sei, mas tô apostando alto, dando tudo de mim. Você era meu depois, e como já foi embora, encontro-me depois do depois. Esse depois é despertar e saber que o mundo quer ser usado, e que em meio às dores, compus as melhores canções. Só não quero ser mais a menina que fica esperando alguém e deixa passar tanta gente boa, tanta gente interessante. Decidi agorinha mesmo que tô afim de dançar com essa dor latente, com essa dor que me impulsiona a viver e que tenta me enganar quando diz que tô perdida. Perdida mesma estará essa dor quando se envolver com as notas que meus dedos compuseram, descobrir que ela está fora do tom e que precisa partir: ela não passa de uma música que, por mais que eu goste, já desgastou meus ouvidos.


Karina Angolini

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida..
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