xiuxiueig

Sussurros do desassossego.

Karina Angolini

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

Sobre os desamores

Com o tempo, tudo se vai. E não, isso não deve ser um problema.


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Desamar é algo bastante cabeludo. Eu ainda não sei se é possível deixar de amar alguém, assim, de repente. Acredito que o amor seja uma edificação que se constrói diariamente com confiança, respeito, admiração e tantas artimanhas. Mas desamor, aqui, leia-se amores que não foram; amores que morreram antes mesmo que iniciar a construção, antes mesmo das bases e dos pilares - ou seja: amores meia boca, parciais (se é que podem ser chamados de amores). Os desamores, meu bem, machucam muito o sentir, maltratam a ilusão e a esperança de que um dia o amor chega. Ele chega mesmo? Será que o amor de nossas vidas está por aí? Amamos apenas uma vez?

É normal que depois de uma grande dor amorosa nos fechemos e afirmemos que é melhor estar só, que você se basta e toda a ladainha que conhecemos. Não, isso não é um problema - cada um é uma catedral, uma ilha - e todos os suplementos estão escondidos dentro de nós mesmos. Eu sempre achei linda a ideia do amor ideal, perfeito - problema de uma infância que prega que o "felizes para sempre" aparece - mas eu não quero esperar isso para escrever meu final feliz, não mais. Um dos problemas da atualidade é a parcialidade: as pessoas são rasas, são superficiais - amam até quinta feira a noite, amam enquanto você satisfaz o ego dela. Vivemos na era da conveniência: o que não me cabe eu simplesmente jogo fora. A linha é muito tênue: o que te faz mal deve ir pro lixo sim, mas o que não é lixo não deve ser tratado como tal, percebe? Usar pessoas, jogar com os sentimentos...

Nós não somos lixo, nossas ideologias não são lixo e o emaranhado que compõe toda nossa personalidade deve ser apreciado, mas como dizem por aí, não adianta: se uma pessoa é incapaz de te enxergar profundamente, se ela não for equivalente e prezar pelas mesmas coisas, ela poderá até te olhar, mas jamais compreenderá o que você guarda por baixo da sua pele. Dói aceitar que alguns amores simplesmente não podem ser, não podem existir; dói perceber que amamos sozinhos e destruímos nossas fibras por uma pessoa que não oferece reciprocidade. Dói e não dói pouco. Mas a dor nos faz enxergar uma outra face de tudo isso: os desencontros sempre nos levam a algum lugar.

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Você percebe que o final feliz não está nas mãos de outras pessoas, que sua história será demarcada por outros e o que você subtrai das suas cicatrizes é o que mais importa. Você aceita que ninguém é obrigado a estar do seu lado, portanto, dane-se que fulano ou ciclana não querem trilhar a mesma estrada que você - é um direito deles; afinal, nós também temos nossa peneira e filtramos quem vai e quem fica. Aceite isso. As pessoas chegam até nossas vidas e podem nos ensinar muito, ainda que não elas não permaneçam ali para sempre. O para sempre não existe, ele acaba, e isso só vai ser um estrondo se você permitir (você sempre irá aprender, constantemente, que os outros só fazem para nós aquilo que permitimos que façam). Se eu permiti uma vez que brincassem com o que sinto, tenha certeza que tirei flores em meio ao concreto: foi a primeira e última vez. Eu escolho não me sujeitar mais a isso. E em meio a tudo isso, estão as pessoas que fogem dos (des)amores.

Ah, se soubessem como é bom amar e ser amado! Não vai ser para sempre, não vai ser perfeito, mas vai fazer um bem danado. Permitir-se é uma atitude de garra. Permitir-se ser feliz em meio ao maremoto que é estar vivo é um ato de amor por si mesmo. O ser humano é um camaleão: temos uma capacidade incrível de adaptação. Podemos até sofrer quando algo supremo é retirado de nossa rotina, mas logo percebemos que, apesar de ninguém ser substituível, amadurecemos e percebemos que não podemos cobrar dos outros o que não podemos oferecer - o amanhã é incerto demais e juras de um amor eterno são tão infundadas quanto as histórias de princesas: lamento a decepção, mas sua abóbora não se transformará em uma carruagem, e um homem não vai sair por aí testando o sapatinho deixado em todos os pés até chegar ao teu - você tampouco faria isso, certo? Com toda a efemeridade que nos preenche, por que tanta insistência em querer que tudo seja sempre igual, sempre o mesmo? Basta olhar para o passado e ver como muito do que passamos não nos caberia mais hoje: aquela amizade, aquele primeiro namorado, aquela preocupação...

As prioridades mudam; você muda. Estamos em constante crescimento, mas esquecemos que os outros também estão. Idealizamos amores e brigamos por eles, ainda que irreais. Qual o fundamento eu não sei. Saber separar um ciclo do outro e superar tranquilamente a máxima de que 'tudo está e nada é' é sabedoria. Se aparecer um amor, ótimo - saiba aproveitá-lo sem exigências vulgares e sem depositar sua esperança de uma vida melhor nas mãos do outro (isso cheira à decepção), pode ser que dure, pode ser que não, mas vocês dois terão muito o que aprender juntos, isso eu garanto, seja um mês ou seja cinquenta anos.


Karina Angolini

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida..
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