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É necessário sair da ilha para ver a ilha.

Yasmin Corbo

Yasmin Corbo é publicitária, jornalista e escritora: adepta do olhar demorado, sincero e simples sobre si mesmo, as relações e a vida

A caixa preta das emoções


O Rei Salomão falou do coração como um órgão capaz de fornecer fontes de vida, e digno de ser cuidado e guardado. Na palavra “vida”, cabem vários universos. O que esse texto visa tratar é o universo das intenções, escolhas, tendências. Definitivamente, os mais influentes dos poderes invisíveis que alguém pode carregar, e tentar disfarçar em sua vida inteira. Implacável, quando se diz respeito ao outro. Num mundo de pessoas autoexplicativas, a transparência das intenções dribla o mascarado(a) e escancara aquilo que ele mais temia ser sabido por tudo e por todos.

Bons observadores já devem ter tropeçado em uma pessoa dessas por aí: que vivem arrotando sua boa intenção, explicando os seus fracassos, falando muito de si, no momento em que quem é inteiro só encontra no outro assunto a ser falado. São pessoas que se escondem atrás de manchetes, mas é em suas entrelinhas não-faladas, mas interpretadas, que se encontra a sua essência. Porque essência nada mais é do que intenção não-discursada, transparente. O que se diz que sente, não é fatal; o que de fato se sente, no âmago da própria razão, é poderoso, muda histórias e molda pessoas.

Mas a medida que se pode se arrumar culpados, convencer terceiros e modelar versões, aquelas situações simularão estar sob controle, a quem não quer pagar o preço de desvendar o motivo que faz a ferida arder. Ao contrário, ignorarão aquela dor, no momento em que tempo e energia investidos poderiam ser convertidos em uma força pessoal, usada para criar intimidade consigo mesmo, traçar diálogos honestos dentro de si e reflexões sobre o que o produto das escolhas, negações, frustrações e intenções podem concluir não somente sobre quem você é, mas POR QUE você é.

Interpretados de maneira serena, minando os mecanismos de defesa que tentam nos impedir de enxergar as nossas próprias tendências, esses dados poderão ser usados a seu favor. Ser um adulto que caminha em paz – não se pode confundir com apatia – é presente pra quem tem a valentia de embarcar na ardida viagem rumo ao autoconhecimento, à sinceridade, à raiz das intenções.

É querer pagar o preço de abrir a caixa preta e perguntar a si próprio se você é mesmo vítima das relações a que escolheu participar, e porque tendeu a escolher certos tipos de pessoa; é interpelar a sua inflamação diante de certas ocasiões e interpretar o seu ciúme, a sua inveja, as suas implicâncias; é se permitir olhar de fora a sua polidez e a forma como quer demonstrar ser, convencer a qualquer custo. É perceber o que está ao seu redor como produto de sucessivas escolhas suas, as quais, consciente ou inconscientemente, você teve plena influência, e no mínimo as desejou. É sair da zona de conforto dos fingimentos, dos sorrisos de álbum de família e ver a real situação das pessoas em sua vida, e perceber que desde antes de ter um corpo, você tinha emoções, e é resultado de uma complexa equação.

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Se observar de fora, ou contar sua história a você mesmo em terceira pessoa, pode ser a melhor maneira de se olhar por dentro. Nesse caso, a distância gera proximidade. O mundo das emoções pode ser altamente administrável durante muito tempo, mas em algum dia os teus frutos ganharão voz. A vida sempre dá um jeito de mostrar que dela não se esconde nada. A crise chega, os filhos crescem, a solidão desponta, os pais envelhecem: as condições adversas necessárias pra que você resolva as tuas mazelas – ou pare de ignorar elas - vão bater à porta. E isso pode se converter em dádiva ou maldição. Os indispostos se dirão vítimas. Os humildes enxugarão a testa e descobrirão, nessa jornada, novas camadas de si mesmo.

Talvez o eco dessa conversa interior não seja aquele que você deseja ouvir. Mas talvez esse seja o segredo. Se você não deseja ouvir, esse é um sinal de que deva ser ouvido. São nos assuntos mais incômodos que moram as pautas mais urgentes. E se você abordá-los, pode achar o caminho para escolhas sólidas, bem-sucedidas e transparentes. Se assumir transparente é prevenção de saúde emocional. É no colo dessas pessoas, dispostas ao silêncio necessário às conclusões da alma, que os sentimentos mais legítimos, como o perdão, o amor gratuito, a sensatez, a liberdade e a mansidão, encontram morada. E se tornam plataformas propulsoras às conquistas mais essenciais à felicidade plena.


Yasmin Corbo

Yasmin Corbo é publicitária, jornalista e escritora: adepta do olhar demorado, sincero e simples sobre si mesmo, as relações e a vida.
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