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É necessário sair da ilha para ver a ilha.

Yasmin Corbo

Yasmin Corbo é publicitária, jornalista e escritora: adepta do olhar demorado, sincero e simples sobre si mesmo, as relações e a vida

A morte é o contraste da vida

Na situação da morte, há uma constatação melancólica e bela ao mesmo tempo: ainda que, dia após dia, estejamos caminhando para o destino universal de todos na terra, e o próprio corpo avise que deseja parar, há uma força insistente que só cala no momento da notícia fatídica.


O que seria do branco se não fosse o preto? Qual valor haveria na paz se não fossem os dias ruins? No contraste entre duas condições encontra-se sempre explicação oportuna.

Na situação da morte, há uma constatação melancólica e bela ao mesmo tempo: ainda que, dia após dia, estejamos caminhando para o destino universal de todos na terra, e o próprio corpo avise que deseja parar, há uma força insistente que só cala no momento da notícia fatídica.

Melancólica por motivos óbvios. Bela porque a vida ante a morte ganha, ainda que perca. Pois se a morte se estabelece no silêncio do corpo físico, a vida se legitima no grito da insistência, até a última gota. E ainda que o corpo pereça, o legado se estabelece como uma plataforma de amor e saudade. A morte é o contraste da vida, pois só o que é vivo morre, disse Suassuna.

É o contraste necessário para se entender a complexa combinação de fragilidade e força que dá substância à vida; para se conhecer o amor que não depende do contato físico, ainda aumenta quando exposto à saudade; é necessária para se observar nossa pequeneza diante do universo, e a grandeza do consolo que insiste em afirmar que haverá o dia seguinte.

O contraste que, ao tirar de cena uma pessoa, nos mostra o quanto as insondáveis escolhas de Deus são generosas, no momento em que a Mente que tudo sabe e tudo prevê nos arremessa na casa em que nascemos, e percebemos o poder da fascinante invenção chamada família.

O contraste necessário para entender que nenhuma vida é mantida por uma força menor que a de Deus, e que suas linhas não são tortas, são insondavelmente certas.

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Um rabino certa vez disse que temos nas mãos o poder de transformar nossos amados que partiram em mártires de Deus ou mártires do diabo. Quando a perda da pessoa nos faz desistir dos sonhos, abandonar a luta e trilhar um caminho de autodestruição, então fizemos da pessoa amada um mártir do diabo.

Mas quando decidimos honrar a memória da pessoa amada, e nos dedicamos a escrever uma história parecida com a dela, combatendo dia após dia o bom combate, escolhendo a vida em lugar da morte, então fazemos daquele que se foi um mártir de Deus.

É esse o movimento que rende a morte à vida bem-vivida, reconciliando a existência com seus donos, e dando ao solo em que fora plantado lágrimas o poder de germinar coisas novas em cima de tudo o que fora aprendido.


Yasmin Corbo

Yasmin Corbo é publicitária, jornalista e escritora: adepta do olhar demorado, sincero e simples sobre si mesmo, as relações e a vida.
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