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É necessário sair da ilha para ver a ilha.

Yasmin Corbo

Yasmin Corbo é publicitária, jornalista e escritora: adepta do olhar demorado, sincero e simples sobre si mesmo, as relações e a vida

A música atual e o mergulho na alma

Os grandes poetas, contextualizadores do que se sente e vive, ministradores do emocional coletivo, se machucariam ao tentar mergulhar nessa piscina tão rasa que é a música atual. São esses - os tradutores da alma alheia - os verdadeiros intermediadores do grande mistério que envolve a relação pessoa-música.


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A música é o organismo cultural mais transparente que existe. Se eu quisesse fabricar, neste momento, um discurso industrializado para tocar determinadas almas, usando palavras de efeito, técnicas de persuasão, certamente o faria. Sem que o meu coração tivesse comprometido com o sentimento disposto, com um apelo emocional quase político, o conseguiria. Se um cineasta quisesse, também o faria.

Não que a literatura e o cinema sejam menos sensíveis que a música, imagine! Mas é difícil mentir, omitir ou fingir sentir quando os acordes falam através do compositor. Ou travarão mediante um sentimento falso, ou romperão barreiras diante de um transbordante desabafo.

É como se aquela obra tivesse dimensões espirituais, e só escolhesse o ouvido – e almas - mais atentos a captá-lo e colocá-lo no papel. Vide “Yesterday”, música dos Beatles. A melodia acordou Paul McCartney em uma certa manhã, martelando em sua mente, sem que o cantor soubesse que aquele esboço seria futuramente um fenômeno musical, e figuraria no Guiness Book por possuir o maior número de releituras.

Uma música que carimba tantos corações, efetiva sua mensagem em tantos outros é de fato um som que transcende limites de personalidades – e faz bem além do que entreter. Se um artista como esse nos convida para o seu mergulho pela alma e nos faz compreender sua abstratividade, ele é não só um ser emocional, como um ser didático. E seres didáticos têm poderes sob a sociedade que os assistem. Se de fato a música é essa fonte complexa de humanidade e traz à tona esse paralelo entre o íntimo e o coletivo, transformando mentes, podemos considerá-la um medidor do nível de inteligência emocional humano. O que as nossas músicas têm nos falado sobre a atual sociedade? E sobre nós mesmos?

As músicas brasileiras de 2015 têm sido intertextuais com o comportamento de interatividade do momento. Para fabricar” um single, a internet tem sido utilizada como mensurador de comportamentos repetidos, jargões engraçados que acabam por fabricar refrões de músicas-chicletes, gerando mais e mais visualizações em canais de vídeos - Receita pronta para suce$so.

Casos de baladas e paqueras têm sido explorados de forma redundante e com rimas simplistas. O universo musical, que outrora não cabia dentro de si por ousar falar sobre o infinito dentro de cada um, se resume hoje à trivial vida social de seus consumidores. As musas inspiradoras, observadas de maneira tão especial e longa, multiplicaram-se em personagens sem nome, conhecidas somente pelos seus atributos físicos e gostos.

Percebe-se que a música não é só um instrumento de reflexão social, mas de foro íntimo também: diagnostica a superficialidade da juventude atual através do que tem figurado como música de sucesso da atualidade. O mergulho profundo da alma humana, a reflexão sobre a morte, a melodia que surge no inconsciente do sono perde espaço para uma rápida leitura da sociedade que não se cansa de se olhar, postar, cantar, não sobre o que de fato acontece do lado de dentro, mas sim do que ser aparentar. É uma música que diverte, mas não emociona. Suas possibilidades se esgotam nela mesma.

Os grandes poetas ou instrumentistas, contextualizadores do que se sente e vive, ministradores do emocional coletivo, se machucariam ao tentar mergulhar nessa piscina tão rasa. São esses os que, por noites de sono jogadas fora, concluíram que vale a pena acreditar no passado; que a juventude é como um diamante ao Sol; que viver é melhor do que sonhar; que pra falar com Deus, tem que calar a voz. São esses os tradutores da alma alheia os verdadeiros intermediadores do grande mistério que envolve a relação do ser humano com a música.

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Reforçam a aura nostálgica que a música parece despertar, porque parecem estar sempre no passado; na contra-mão da velocidade, param para refletir. No tempo das auto-fotografias, se autoanalisam. Ainda que muitos tenham partido, sumido, aposentado, é inevitável o uso da conjugação presente, porque a Música com letra maiúscula se torna atemporal, não só por sua qualidade técnica, mas pelo sublime dom de prevalecer às mudanças de comportamento, vocabulário, percepção. Sempre farão sentido, pois a língua em que foram escritas pode ser compreendida por doutores e analfabetos. Parece cliché, mas a música é a melhor tradutora da alma. O grande paradoxo é que, apesar da crise que vive, ela continua sendo boa nisso.

A pergunta que fica é: a alma artística vive uma crise de superficialidade ou é a sociedade quem vive?

Ao que parece, os dois. A música, nesse caso, nada mais é que um sintoma da pouquíssima profundidade que permeia as relações e reflexões dessa juventude, que em sua maioria vive em função dos acontecimentos narrados nos já citados sucessos. Mas nós, consumidores atentos, sentimos falta da plástica honesta, humana, transparente. Na belíssima canção “Coração Selvagem”, interpretada recentemente por Ana Carolina, Belchior disse que “seu coração é frágil como um vidro, como um beijo de novela”, e é essa a esperada sensibilidade de um artista, que não passa inerte à nenhum amor, nenhuma dor. Pulsa pela vontade de ver e entender tudo o que chega aos ouvidos da alma.

Periga no mundo das palavras e abre diálogo entre vida e arte. Tão grande que cabe em tantos outros corações; tão grande que às vezes não cabe dentro do coração de quem o criou. Os finais podem não ser sempre felizes como nas músicas, mas o que faz o artista além de doar a sua vida em função de decifrá-la?


Yasmin Corbo

Yasmin Corbo é publicitária, jornalista e escritora: adepta do olhar demorado, sincero e simples sobre si mesmo, as relações e a vida.
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