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É necessário sair da ilha para ver a ilha.

Yasmin Corbo

Yasmin Corbo é publicitária, jornalista e escritora: adepta do olhar demorado, sincero e simples sobre si mesmo, as relações e a vida

Nadamos, nadamos e morremos na praia

O Oriente Médio é o inconsciente do mundo, a caixa-preta da humanidade. Ignorável, até que seja esteticamente decifrável e compartilhável. Imagens valem mais do que mil palavras, mas não deveriam valer.


As redes sociais pararam com a foto do menino Aylan, refugiado sírio, morto na beira de uma praia após uma tentativa frustrada de fuga com sua família. Tal imagem ganhou as timelines de gente de todo o tipo. Foi explorada e readaptada como caricatura, quadrinhos, etc etc etc...

A sensação que se tem, passado o frisson e analisando friamente o fenômeno, é que, como se por um milagre instantâneo – e o desligar da câmera frontal – uma fatalidade fotográfica conseguisse definir e trazer ao bel conhecimento do mundo globalizado - porém leigo - o que de fato ocorre do outro lado do mundo.

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Aquela tragédia captada pela lente, haja vista a comoção causada, parecia carregar consigo a responsabilidade de vomitar à sociedade ocidental não só a amargura, mas o contexto sofrível que a levou às vias de fato.

Mas, na sociedade das selfies, onde mobilização se resume a hashtag e “compartilhar” é o melhor que se pode fazer por uma causa, o menino Aylan é um mero produto da cultura de massa. Na hora e lugar errados na perspectiva do que se deseja para uma criança, mas no momento e local certo em perspectiva jornalística - que deseja sempre contextualizar uma realidade de maneira mais real possível - o garotinho se tornou símbolo da força da guerra perante a imagem imaculada e frágil de uma criança. Mas não só isso. Aquela foto falou também sobre nós mesmos.

Os mesmos que compartilharam as imagens do menininho sírio, são aqueles que fingem não saber que o Oriente Médio é o inconsciente do mundo, a caixa-preta da humanidade, ignorável até que seja esteticamente decifrável e compartilhável.

Imagens têm um poder de redenção instantâneo, que duram até a próxima ascender ao produto de consumo do momento. Elas valem mais do que mil palavras, mas não deveriam valer. Porque as palavras têm o poder de libertar a mente do cárcere da ignorância, mas as imagens nos dão a falsa sensação de domínio.

O caso do menininho sírio não relata nenhuma novidade. Dia e noite imagens – como a de Che Guevara morto, posteriormente transformado em estampas de camisetas em pose de herói – são transformadas em mártires de causas. Causas que têm garotos-propagandas legítimos, mas pouca consistência. Porque nasceram no seio de uma sociedade fetichista em relação à expressão estética, coletivista e sentimentalista, mas limitada em relação à interpretação da dor.

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Saramago disse que nossa maior tragédia é não saber o que fazer da vida. Se ao menos lembrássemos que todo dia é 11 de setembro em alguns lugares da terra... Se fizéssemos da causa uma isca para uma autorreflexão, e resgatássemos a empatia pulsante, aquela que faz arder em nós a dor do outro...

Se assim fizéssemos, perceberíamos que a foto não fala de uma criança morta. Mas de uma sociedade que não vê nela mesma prioridade, e observa um ser humano à deriva, inseguro no seu habitat natural, como tantos outros, sem nenhuma voz disponível a gritar por si.

No mundo globalizado, em que mapas estão ao alcance de um clique, mares ainda engolem crianças. Fronteiras, tão facilmente vencidas através do consumo e da internet, são mortíferas. Se, de alguma forma, desterritorializamos marcas, idiomas, hábitos e filosofias, enterramos o que restava de tato nas relações humanitárias – lê-se aquelas em que não se recebe retorno afetivo, financeiro ou político.

Como se encontrássemos nas palavras do sociólogo polonês - e ex-refugiado, diga-se de passagem - Bauman, o sentido do por quê não progredirmos: vivemos tempos de liquidez e fluidez. Maravilhosas são as pessoas - e causas - que não conhecemos bem, e estão fora de nosso alcance.

Se entendêssemos o quão cômodo é render a uma imagem o poder de catarse, à falsa sensação de solidariedade, nos sentiríamos como exatamente somos: incompetentes com nossa própria raça.

Se discerníssemos parte disso, e todo o restante que a vossa ignorância nos impede de alcançar e escrever, entenderíamos que assim como Aylan nadamos, nadamos e morremos na praia.


Yasmin Corbo

Yasmin Corbo é publicitária, jornalista e escritora: adepta do olhar demorado, sincero e simples sobre si mesmo, as relações e a vida.
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