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É necessário sair da ilha para ver a ilha.

Yasmin Corbo

Yasmin Corbo é publicitária, jornalista e escritora: adepta do olhar demorado, sincero e simples sobre si mesmo, as relações e a vida

Reflexões para um amor eterno

O precipitamento do amor, compreensível haja vista seu caráter apaixonado, pula todas as cláusulas e inocentemente vai direto até a assinatura. E isso não é negativo, apesar de arriscado, pois existe razão nas coisas feitas pelo coração.


Amor não tem data de validade, mas nosso coração inflexível, que um dia resolve apostar todas as fichas num tal amor – às vezes, em um só amor, de papel passado e aliança – não tem cintura para o rebolado da vida a dois.

O precipitamento do amor, compreensível haja vista seu caráter apaixonado, pula todas as cláusulas e inocentemente vai direto até a assinatura. E isso não é negativo, apesar de arriscado, pois existe razão nas coisas feitas pelo coração.

Mas a sua manutenção muitas vezes é inimiga da sua própria essência. Antes não houvesse o dia seguinte. Mas se não houvesse, paixão seria, e não amor.

Ninguém é a mesma pessoa todos os dias. É como se a moeda utilizada fosse variando dia após dia e aquela transação – lê-se relação - tivesse de ser administrada segundo o valor que ainda tem para os dois – se ainda tiver o mesmo valor para os dois. Por isso, coloca em risco até o que sabemos sobre nós mesmos.

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A questão é que o primeiro amor não dá sustância nem para si mesmo, tampouco para a proposta de uma vida inteira. O alimento necessário para comportar o ingrato passar dos dias no calendário conjugal, que muitas vezes arrasta-se em longas e difíceis horas, passa longe do arroz e feijão oferecido por duas almas que por vezes se chocam e se cansam do mesmo cardápio – e dos mesmos tombos emocionais. Graças a Deus há o dia seguinte, pois é sinal de uma nova chance!

O importante é saber que sair dos trilhos é natural. Que é na fraqueza do ser humano que o amor encontra impulso. Na inconstância, que ele encontra equilíbrio.

O amor verdadeiro é aquele que declara sua hipossuficiência diante da tempestade, e apela às estratégias de guerra para que o amanhã exista, pois na nebulosidade da tensão consegue enxergar que o melhor ainda é permanecer junto.

Contraria as tendências pessoais pela própria força, destrói linhas que separam histórias, abate o eu, faz o território do outro ganhar mais importância que o seu.

E que o casamento é, na verdade, uma tentativa de amor. Nada tem a ver com passividade, submissão, ou qualquer condição que não tenha um fundo inexplicável. O que se explica não é amor, e sim acordo. Pois o amor verdadeiro, da Carta de Coríntios, é um estado muito elevado para julgarmos conhecer tão bem.

O amor não se justifica no hoje, pois amanhã poderia acabar e seria mentiroso. O amor se justifica no último dia. E o último dia, nós não sabemos qual é. Que na caminhada até ele, pelo menos, estejamos na boa e velha companhia do amor que a vida deu a cada um. Amém.


Yasmin Corbo

Yasmin Corbo é publicitária, jornalista e escritora: adepta do olhar demorado, sincero e simples sobre si mesmo, as relações e a vida.
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