Maitê Zickuhr

Transformar ideias em escritos; só assim consigo reorganizar pensamentos por meio de uma visão externa de mim mesma. Revisora de livros e consultora do @Transverbera

GERAÇÃO PERDIDA?

Cobranças sempre houve. Mas e agora que a sociedade tem facebook e mostra o quanto ela é bem-sucedida, linda, rica e magra, e você não? O que fazer quando o mundo todo parece perfeito?


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Gente, a vida não espera. Você precisa correr atrás dos teus sonhos e batalhar pelo que deseja, o quanto antes, e cada vez mais.

E esse mundão de meu Deus está aí para te incentivar, mostrando o que cada um conseguiu: aquela gordinha do teu facebook que deu uma bela emagrecida e que agora tem tudo para ter aquela barriga negativa que tanto almeja, o esforçado da academia que por meio de provações imensas transforma preguiça em músculos; aquele dedicado colega da escola que, após tanto estudo e especializações, logo mais chega a chefão de uma multinacional. Sem esquecer, claro, a tua amiga, correndo com os últimos preparativos do tão sonhado casamento.

E você, onde está? Se enquadrou em alguma dessas vidas? Ou melhor, em quase todas? Pois deveria. Afinal, por meio das redes sociais o mundo te dá exemplos diários do que você deve fazer para ser bem-sucedido, basta trabalhar duro para isso, e, se eles chegaram lá, você também pode!

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Ou não. E aliás, talvez nem queira. E tudo bem com isso – ou ao menos deveria ser. Será que em algum momento você parou para pensar que tudo isso aí a seu alcance até pode ser o modelo dos sonhos para muita gente, mas não necessariamente para todos? O ideal de beleza é um ideal pra quem? E desde quando?

Tizian_102.jpg Titian, Venere di Urbino (Venus of Urbino), 1538, Galleria degli Uffizi, Florence

Você nunca se pegou olhando para aquelas deusas renascentistas e pensou “Puxa, um regiminho ia bem”? E o que falam tanto da Marylin Monroe, com aquelas coxas grossas? Scarlett Johansson ganha fácil! Isso supondo que a sociedade dos anos 1950 não a consideraria uma magrela sem graça, claro. E também se pensarmos na Johansson agraciada com todos os requintes que um bom Photoshop é capaz de fazer, óbvio (longe de mim criticar o corpaço de Scarlett, mas é que, como você já deve saber, ela tem imperfeições como qualquer ser humano, que são magistralmente retocadas pela tecnologia).

A cantora Boggie mostrou direitinho como o tal do Photoshop funciona.

Para mim esse é um dos melhores exemplos de como é efêmera a definição do que é ou deixa de ser belo. E não é frustrante – ou ao menos contraditório – passarmos nossas vidas inteiras tentando alcançar um objetivo que nem seria de fato o nosso, caso a sociedade não nos empurrasse goela abaixo que é isso que devemos querer ser? Aí você me diz que esse é mesmo o estilo de vida que você quer seguir, e que não é uma escolha social, mas sim somente e apenas – ou principalmente – tua. Sabe o que eu te respondo? Tudo bem, e seja feliz! Sério. Minha conversa aqui não é pra discutir, e de verdade respeito teu estilo de vida. Minha preocupação, na realidade, está voltada para outra coisa: as autocobranças tendo como ponto de partida uma falsa realidade, vista por meio de telas de computadores e revistas de moda, moldada para te fazer crer que todos são especiais neste mundo (menos você). Acho que já passou da hora de se questionar: Mas será que é assim mesmo?

O que estou querendo dizer é que, talvez, aquele teu conhecido que você não sabe nem ao certo como foi te adicionar no facebook esteja passando pelos mesmos questionamentos que você, e tudo bem por isso. Já imaginou que esse teu trabalho insuportável pudesse ser o emprego dos sonhos de teu colega facebookiano? E todos que invejam as fotos de você e teu amor, só porque não fazem ideia do quanto vocês discutem e de como esse relacionamento já está desgastado? Ou então, e se muitas das curtidas que você recebeu naquela tua foto descolada altamente intimista acompanhada da libertária legenda “Enfim solteiro”, em vez de um simples apoio virtual, fosse um tributo à tua coragem de deixar as expectativas de casar e ser feliz pra sempre de lado para ir em busca do que realmente importa?

“O que seria do verde, se todos só gostássemos do vermelho?” Já dizia a sabedoria popular, ninguém é obrigado a ser igual. Hoje, as cobranças são as mesmas para todo mundo e, ao que parece, todas as pessoas estão seguindo a moda de se diferenciar de todo mundo – e com isso acabam sendo todos iguais, seguindo os mesmos estilos e tentando se mostrar digno do que a sociedade espera. Mas e se, sei lá, todo mundo decidisse se aparecer menos pra sociedade e mais pra si mesmo? Como será que seria?

Você está disposto a tentar?

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Maitê Zickuhr

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