Maitê Zickuhr

Transformar ideias em escritos; só assim consigo reorganizar pensamentos por meio de uma visão externa de mim mesma

E se fosse com você?

Muito se tem escrito sobre os refugiados atualmente, afinal, é um tema bastante em voga, dado a sua importância social. Porém, aqui fica o alerta: é preciso tomar cuidado para não se transformar em um assunto que, de tão repetido, torna-se banal.


O número de refugiados cresce a cada dia mais. Sem dúvida, o que ocorre hoje é um movimento histórico e, mais que isso, uma situação crítica que precisa ser solucionada por todos, afinal, somos todos humanos e (pelo menos em teoria), temos como dever e obrigação auxiliar ao próximo, menos desfavorecido. Mas e quando isso significa uma contradição, visto que, no caso dos refugiados, a fuga é provocada por outros seres humanos, que simplesmente se sentem no direito - e agem como tal - de sobreporem suas crenças e ações às de seus semelhantes? É por culpa da religião deles que tudo está assim e, como dizem, "você colhe o que planta". Eles que pediram por isso. Por que deveríamos dar abrigo àquele que foge de seu país em vez de lutar contra seu algoz? E fora os espertinhos que estão aproveitando isso como desculpa para irem para a Europa, né? E os haitianos, então, povo despreparado que vem aqui tirar nossos empregos?

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Você também se incomodou com alguma dessas colocações, ou com este tipo de pensamento como um todo? É incrível pensar que há gente que acha isso, né? Quer dizer, é óbvio (ou ao menos deveria ser), que não é uma opção deles, eles o fazem apenas porque não há outra alternativa, e que não, eles não queriam deixar seus lares em busca de uma vida nova, assim como foi o caso dos imigrantes fugindo da Europa rumo ao Brasil por causa da guerra. Já pensou se fosse com você? Ponha-se no lugar deles. Difícil, né?

Pois então.

A este sentimento de se colocar no lugar do próximo damos o nome de "empatia". Essa sensação é algo ligado ao emocional, e penso até que é como se fosse uma espécie de "compaixão distanciada", posto que a compaixão carrega um pouco também de piedade, enquanto que a empatia nos permite nos identificarmos com o sentimento de uma outra pessoa e, na medida do possível, entendermos como ela se sente, mas sem necessariamente fazermos algo para mudar essa situação ou nos penalizarmos por isso.

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Sendo assim, já pensou o perigo que é nutrimos empatia por alguém mas, com o tempo, acabarmos nos acostumando com a situação - visto que quem tem compaixão, compadece, enquanto que a empatia apenas permite uma identificação com os outros? E se, ao nos identificarmos sem que haja um sentimento de "dor" atrelado, sermos sugados pelo fluxo constante de informações, tão característico dos dias de hoje?

Bom, aí que mora o perigo. O mundo todo tomou consciência da crise migratória a partir das fugas vindas dos mares e, o que foi emblemático, foi a morte do menino sírio. Lembram daquela foto?

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Poderia colocá-la aqui, mas não vou. Primeiro, porque não preciso fazê-lo, visto que só de mencionar certamente ela já veio à memória. E segundo, porque não devo. A discussão e reflexão acerca do que está acontecendo é importante e extremamente necessária. Porém, ela precisa ser elevada a um outro nível: apenas martelar pré-conceitos e reduplicar mensagens não ajuda. É preciso uma reflexão profunda e amparada não somente na empatia que, ao ser explorada por todos os meios e de forma tão insistente, corre o risco de se tornar banal. Tampouco ajuda a compaixão ligada à pena: não precisamos ajudar apenas por dó, só isso não é suficiente, posto que é momentâneo: muitos, após a primeira ajuda, já se sentem bem consigo mesmos e acabam se distanciando da situação com o passar do tempo. Mas aí é que está: para os refugiados, a mudança é pra sempre. Eles fugiram de seus lares e, fora o trauma que sofreram, ainda precisam se adaptar ao país que os acolheu. É por isso que num primeiro momento toda ajuda é válida mas, depois, movimentos mais profundos precisam ser pensados, como por exemplo ensino do idioma e da cultura do novo país aos refugiados. Só assim uma efetiva integração social será feita.


Maitê Zickuhr

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