Maitê Zickuhr

Porque amanhã eu
– ih, já foi

Michelle Bolsonaro: machista ou feminista?

Feminismo engajado e retrocesso: um ensaio de como a primeira-dama brasileira foi símbolo de avanço e involução, concomitantemente.


Michelle_REpTVGLOBO.jpg Michelle Bolsonaro durante discurso. (c) Reprodução/TV Globo

A questão aqui não é política. Quer dizer, até é. Mas não esquerda x direita, coxinha x mortadela ou mito x bozo. A política aqui consiste no papel da mulher na sociedade, enquanto indivíduo.

Nesse aspecto, o ato de Michelle Bolsonaro, em 1 de janeiro de 2019, de discursar em LIBRAS na cerimônia de posse de seu marido, foi para muitos um símbolo de empoderamento feminino e, para outros, mero populismo. Quem está certo? Bem, talvez estejamos diante de um caso de nuances em vez do preto no banco ao qual estamos acostumados a encarar os fatos, mesmo que a vida constantemente nos mostre, dia a dia, que nada é 100% sim ou não, certo ou errado.

A verdade é que não existe verdade. O que temos são perspectivas. E, na atual situação política brasileira, a tendência é, a partir das nossas convicções preconcebidas, já pré-julgarmos as atitudes antes mesmo de as avaliarmos, apenas embasados no fato de que nos identificamos com ou rechaçamos o indivíduo autor da ação.

A partir disso, a tendência é, caso eu tenha votado no Bolsonaro, admirar a ação de Michelle e, caso não, julgá-la. Que tal fazermos um exercício de identificação de prós e contras do ato em si, ignorando a pessoa que o realizou? Difícil? Bastante. Mesmo porque, já sabemos de quem se trata e a ação já ocorreu, então, já estamos de um modo ou outro influenciados por isso. Mas como tentar não custa nada, vamos lá.

Primeiro, imaginemos que quem ganhou a eleição foi o candidato Fernando Haddad, e que a nossa primeira-dama é Ana Estela Haddad. Isso talvez ajude (beeeem pouco) a diminuir a preconcepção que temos. Ana Estela é engajada em uma política de inclusão há anos e aproveita para discursar durante a posse de Haddad. Ela é a primeira mulher a fazer isso, e fala antes do marido. Bacana. A priori, foi algo inovador e bastante audacioso. Contudo, seu discurso é moderadamente conservador e a imagem que passa é a de ser uma mulher modesta e dedicada ao marido e a valores religiosos. Há algum jeito de alguém assim ser considerada feminista?

Como a grama do vizinho é sempre mais verde, vamos dar uma olhada em outra cerimônia, a de posse dos presidentes dos EUA.

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Notou como as mulheres dos presidentes norte-americanos seguram a Bíblia durante o juramento, quase como uma mesinha de luxo?

Bem, uma imagem vale mais do que mil palavras:

15463904255c2c0b99d0701_1546390425_3x2_rt.jpg Primeira-dama durante discurso em Libras. (c)Folhapress

Sacaram a diferença?

O que ocorre é que, por um lado, há, sim, empoderamento. Daqui centenas de anos, provavelmente ninguém terá acesso ao comentário da página de Facebook do influenciador X sobre o quão populista é o ato de Michelle Bolsonaro. Por outro lado, há chances de sua imagem ainda estar presente, como um símbolo de empoderamento feminino do século XXI. E nem precisa ir muito longe: talvez a diferença já se sinta em questão de décadas. A menina de hoje, acostumada ao status quo vigente, talvez descubra, ao olhar para a cena – mesmo que não entenda o que ela significa e os valores políticos atrelados a ela – que uma mulher pode, sim, discursar para um país todo, e da forma que bem entender. Um simples gesto pode ser inspiração para que tenhamos mulheres mais conscientes de si no futuro, e é disso que precisamos.

Importante, contudo, não sermos tão ingênuos. O avanço também pode inspirar retrocessos, e devemos, sim, questionar o por quê de muitas mulheres de hoje se identificarem com a imagem bela e condescendente de Michelle, e que para muitas delas, a discussão mais em voga foi o vestido escolhido para o cerimonial e sua pegada cinquentista, clássica e minimalista. Para muitas, o feminismo se traduz em ser feminina por escolha – como se o “feminismo padrão” fosse sinônimo de masculinização ou mesmo lesbianismo. Para essas, Michelle mostrou, por A + B, como uma verdadeira mulher deve se comportar: falando na frente de uma nação imensa, mas de salto alto e maquiagem impecável.

Nesse sentido, o problema maior está no estereótipo do “ser feminista”, não na atitude de uma mulher ou outra. Está em não procurar estudar o assunto, e apenas replicar que é, sim, um absurdo não depilar as axilas. Aqui, como no caso da Ana Michelle Estela, o problema está em não procurar por mais informações sobre o tema, mas julgá-lo a partir de convicções ventiladas que, mal são internalizadas, já se transformam em opiniões fortes e bélicas acerca disso ou daquilo.

Que tal, para avançarmos, dermos um ou dois passos pra trás, em busca dos preceitos básicos do feminismo, isto é, igualdade, e no que consiste sua luta? Bom estudo a todos!


Maitê Zickuhr

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