Maitê Zickuhr

Transformar ideias em escritos; só assim consigo reorganizar pensamentos por meio de uma visão externa de mim mesma

Reparação: Perspectivas narrativas

Reparação, de Ian McEwan: esse é um livro que te pega pelas entranhas.


O título – Atonement, no original, o qual pode ser traduzido por "expiação" ou "redenção" – lança a fagulha, mas o que incendeia mesmo é o final. Mas nem adianta pular para as últimas páginas, pois o final começa a ser construído nas primeiras linhas do romance. Na verdade, já se inicia no título: qual expiação é esta, e por qual motivo?

A resposta, o leitor vai descobrindo aos poucos, só que de um jeito bastante inusitado: o livro apresenta a forma como a narradora, a pré-adolescente Briony, enxergou os fatos, mas, também, o modo como os fatos realmente aconteceram, a partir de uma perspectiva neutra. Desse modo, temos uma dupla narrativa, a narradora observadora, Briony, e um narrador onisciente.

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A história é tão instigante que foi adaptada ao cinema em 2007 com título em português de Desejo e Reparação ("Expiação", em Portugal), dirigido por Joe Wright e estrelado por James McAvoy e Keira Knightley. Eu sei que aquela questão de qual é melhor, livro versus filme, é bastante obsoleta, porém, quem só viu este, conseguirá acompanhar minha análise, dado que o enredo adaptado por Christopher Hampton é bastante fiel ao retratado no livro.

Para quem ainda não leu, o resumo básico é o de que a protagonista, Briony Tallis, a partir de algumas suposições e sucedidos mal-entendidos, acaba por fazer uma grave acusação. Robbie, filho da empregada da família, envolve-se com Cecilia, a irmã mais velha de Briony. O que seria um romance proibido entre classes, se transforma, na cabeça da menina, num fato: Robbie ousou flertar com Cecilia, de maneira que só poderia ser ele o autor do estupro sofrido, dias depois, por uma prima das meninas.

Robbie irá pagar por essa injustiça por toda a sua vida; assim como Cecilia, praticamente a única a crer na inocência de Robbie e que mostra, com o passar dos anos, que o amor sentido por este era verdadeiro, não coisa de adolescente; assim como Briony que, ao crescer, percebe o erro que cometeu, o qual jamais poderá ser reparado.

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Dentre os diversos aspectos que podem ser abordados do livro, o que mais me chama a atenção é a questão da perspectiva narrativa.

O livro é todo narrado a partir da visão de Briony. Lembra que eu disse que haviam dois narradores? Pois então: o narrador onisciente nada mais é do que a própria Briony, contando a história depois de adulta, fazendo com que o livro seja um grande exemplo de metalinguagem.

É Briony quem conta, com riqueza de detalhes, o destino de sua família após a falsa acusação e, quer queira, quer não, todos os desdobramentos da narrativa só são possíveis em razão do erro que ela, inocentemente, cometeu.

O destaque no termo se dá porque nós, enquanto leitores, presumimos que a menina realmente se enganou. Mas até que ponto podemos afirmar que tudo se deve à inocência infantil?

À época do ocorrido, Briony contava 13 anos de idade e em distintas passagens da narrativa já demonstra ter ideias mais concretas acerca de sexualidade e desejo, quiçá provindos de anos antes – como no episódio narrado de quando a menina tinha 10 anos de idade: durante um passeio, Briony deliberadamente pula no rio e é salva por Robbie, e, ao agradecer o rapaz, então com 19 anos, o diálogo que se segue é:

"Sabe por que eu queria que você me salvasse?" "Não." "Não está na cara?" "Não, não está, não." "Porque eu amo você."

Desse modo, estamos diante de uma versão feminina de Dom Casmurro: o quanto podemos confiar na narrativa apresentada, dado que há forte interesse do narrador em mostrar um viés específico?

E no caso de Reparação há um agravante: grande parte da narrativa se passa enquanto a personagem é uma criança, e a história completa é contada 60 anos depois. Quão fantasiosas são as lembranças infantis? Ademais, como pode haver tantos detalhes em um relato, passados tantos anos?

Sem dúvida Briony teve, enquanto escritora – profissão, aliás, pela qual torna-se famosa quando adulta – de preencher as lacunas produzidas pela ação do tempo.

Dado todos esses fatores, é de se admirar que em nenhum momento o leitor questiona o que Briony relata, mas, ao contrário, entrega-se à narrativa.

Por quê?

Arrisco uma teoria. Reparação impacta por ser reflexo da vida: diferentemente da ficção, nossas escolhas, sejam elas quais forem e em qual idade, jamais poderão ser mudadas. Nisso está a beleza da narrativa de McEvan. Mais que verossimilhança, é um aviso para tomarmos cuidado com nossos atos. Do contrário, não haverá expiação capaz de nos redimir.


Maitê Zickuhr

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